PUBLICIDADE
Topo

Cristina Tardáguila

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

'Maskirovka': a velha (e eficiente) tática russa de mentir para conquistar

3.mar.2022 - Tanques russos chegam à região de Kiev, capital da Ucrânia - Divulgação/Ministério da Defesa da Rússia via Reuters
3.mar.2022 - Tanques russos chegam à região de Kiev, capital da Ucrânia Imagem: Divulgação/Ministério da Defesa da Rússia via Reuters
Conteúdo exclusivo para assinantes
Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

10/03/2022 06h00Atualizada em 10/03/2022 10h04

Faz duas semanas que a Rússia invadiu a Ucrânia e, nesses 14 dias de mísseis e mortes, a comunidade internacional de fact-checkers desmentiu pelo menos 1.359 conteúdos falsos que circulavam pela internet.

E o drama da desinformação só tende a crescer. Está em ação a "maskirovka", a histórica tática soviética — hoje russa — de enganar os inimigos para ganhar uma guerra. Na coluna de hoje, conto um pouco como essa técnica funciona.

Na tradução livre do russo para o português, "maskirovka" significa disfarce ou camuflagem. Mas, desde 1380, quando o príncipe Dmétrio Donskói orquestrou um ataque-surpresa, feito de dentro de uma floresta, e derrotou o exército mongol na batalha de Culicovo, também diz respeito à estratégia militar que usa a mentira para criar ambiguidades e confundir os rivais.

Especialistas ouvidos pela BBC em 2015, depois que o presidente russo, Vladimir Putin, conseguiu anexar a Crimeia, disseram que a "maskirovka" se sustenta em três pilares: a surpresa, a negação e a inevitável desorganização do inimigo.

A surpresa fica por conta não só do horário em que as tropas russas costumam se movimentar, normalmente à noite, dificultando a visualização, mas também pelo fato de que os militares russos são treinados e estão dispostos a obedecer ordens que, do ponto de vista ocidental, seriam consideradas esdrúxulas.

Registros da Segunda Guerra Mundial dão conta, por exemplo, que, em agosto de 1944, a União Soviética deslocou militares e armamentos em direções opostas para confundir as tropas de Adolf Hitler. Também há notícias de que a URSS vestia os soldados soviéticos com uniformes da Alemanha para conseguir penetrar e se misturar nas forças rivais. Também se sabe que a URSS libertava prisioneiros de guerra alimentados com rios de notícias falsas, apostando que eles dariam com a língua nos dentes, levando os opositores a acreditar em informações erradas. E funcionava.

O segundo pilar da "maskirovka", a negação, está na capacidade dos russos de impedir que os envolvidos num conflito tenham a visão geral do confronto, além da ousadia de desdizer o óbvio ululante sem mexer nem um único músculo da face.

A anexação da Crimeia também foi um exemplo disso.

Em 2014, Putin passou dias afirmando que seu país não tinha qualquer relação com os "pequenos homens verdes" que andavam armados e sem qualquer identificação pela região em disputa. Repetia que o grupo não passava de uma milícia local, sem qualquer conexão com seu governo. Em 2015, no entanto, após a vitória, Putin reconheceu que os tais homens verdes eram, na verdade, uma força especial da Rússia. O mundo ficou boquiaberto.

O terceiro pilar da "maskirovka" é resultado imediato da eficiência dos dois anteriores. É a desorientação e a desorganização dos rivais. Quando a "maskirovka" entra em ação, o exército do outro lado perde um tempo valioso tentando entender o que a Rússia está fazendo e/ou tentando enxergar por trás da cortina de fumaça o que seus militares estão escondendo.

Em 1968, na Tchecoslováquia, foi assim. Durante meses, os militares soviéticos fizeram exercícios com enorme movimentação logística nas fronteiras do país com os membros do Pacto de Varsóvia. Por um tempo, a Aliança do Atlântico Norte (Otan) se sentiu ameaçada, mas depois, se dessensibilizou. Foi aí que a URSS avançou, pegando os tchecos e os ocidentais bastante despreparados.

É evidente que todas as potências do mundo adotam táticas de desinformação para alcançar seus objetivos. Em 2003, por exemplo, os Estados Unidos convenceram boa parte do planeta sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque e conseguiram apoio para invadir o país e pôr fim ao regime de Saddam Hussein.

Mas a versão digital da "maskirovka" merece especial atenção.

Além de ter extrapolado a esfera militar, tornando-se uma espécie de política de estado, conta com a velocidade das redes sociais e a polarização política mundial.

Ao contrário do que faz/fazia a propaganda russa/soviética, de exaltar as qualidades inerentes ao povo russo, a nova "maskirovka" busca descredibilizar o inimigo. E é daí que vêm, por exemplo, as acusações de que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, é nazista (sendo ele judeu).

No último fim de semana, o New York Times publicou uma longa reportagem mostrando como a desinformação russa tem separado famílias que têm membros vivendo nos dois lados da guerra. As declarações colhidas pela correspondente são chocantes:

"Não tem ninguém bombardeando Kiev, e você deveria, na verdade, ter medo dos nazistas, grupo contra o qual seu pai tanto lutou. Suas crianças vão ficar bem e saudáveis. Nós amamos os ucranianos, mas vocês precisam pensar bem sobre quem elegem", escreveu da Rússia uma familiar de uma senhora entrevistada pelo jornal americano.

Está aí o resultado mais imediato da "maskirovka".

Cristina Tardáguila é diretora sênior de programas do ICFJ e fundadora da Agência Lupa