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Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Deveríamos estranhar a festa em torno dos anúncios de Telegram e YouTube

Canal UOL: UOL News | Alexandre de Moraes e Telegram - Adriano Machado/Reuters e Dado Ruvik/Reuters
Canal UOL: UOL News | Alexandre de Moraes e Telegram Imagem: Adriano Machado/Reuters e Dado Ruvik/Reuters
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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

24/03/2022 06h00

Duas notícias vindas do Telegram e do Youtube confirmaram nesta semana que a batalha contra a desinformação no Brasil entrou num novo estágio e que parece depender de perigosos gatilhos para avançar.

Na última sexta-feira (18), depois de passar meses em silêncio, o CEO do Telegram, Pavel Durov, veio a público para pedir desculpas às autoridades brasileiras. Há tempos o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF) tentavam — sem sucesso — contatar o empresário para pedir que sua empresa tomasse medidas concretas contra as "fake news" — principalmente as de caráter eleitoral.

Em sua primeira aparição virtual, Durov disse que havia tido "problema com e-mails" e que, por isso não havia respondido as duas Cortes. Em seguida, anunciou uma série de medidas de combate à desinformação que podem realmente impactar na disputa eleitoral brasileira (entre elas, a ainda inexistente contratação de fact-checkers profissionais para avaliar postagens feitas no aplicativo de mensagens).

Na terça-feira (22), foi a vez de o YouTube se mexer e anunciar que passará a remover da plataforma todos os vídeos que, sem qualquer prova real, questionem a integridade das eleições brasileiras de 2018. Medida semelhante já havia sido adotada nos Estados Unidos e na Alemanha e era algo amplamente requisitado por todos aqueles que combatem notícias falsas no Brasil.

É claro que os anúncios são positivos. Ninguém nega que é melhor que esses ajustes cheguem antes tarde do que nunca. Mas é preciso ver que ambos têm gatilhos extremamente parecidos - ações que não estão necessariamente ligadas ao interesse e anseios do brasileiro comum - mas a um posicionamento mercadológico.

Durov só saiu de sua toca virtual depois que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou o bloqueio do Telegram em todo o território nacional.

O movimento do YouTube foi, por sua vez, um claro passo tático na gigantesca batalha contra o projeto de lei das "fake news" (PL 2630), que ganha fôlego na Câmara dos Deputados.

E, pensemos juntos: ficar fora do ar no Brasil é ruim não só para o marketing do Telegram, mas também para seu avanço territorial. Tudo que a empresa quer é ter mais usuários por aqui. E também é ruim ficar de braços cruzados enquanto os parlamentares do país decidem se aprovam ou não um texto que, de certa forma, pode dificultar a presença do YouTube (e de outras plataformas) no Brasil.

Ou seja: não fosse pela pressão vinda do Legislativo e do Judiciário, talvez essas duas gigantes internacionais jamais dessem passos concretos na direção da defesa de uma comunicação factual. Não é surpreendente?

É óbvio que, como empresas privadas que visam ao lucro, Telegram e YouTube não podem tirar os olhos dos movimentos feitos pelos Poderes da República e que precisam sambar conforme a música. Mas é de causar certo arrepio saber que o gatilho para ajustes tão necessários sejam posições tomadas por autoridades anteriormente. Não deveria ser política das big techs lutar verdadeiramente para ser um ambiente com menos inverdades?

E veja só como não seria assim tão complicado.

De acordo com o próprio Telegram, 95% de toda a comunicação que acontece dentro do app no Brasil vem de não mais do que cem canais. Uma comprometida estratégia de combate às "fake news" possivelmente minimizaria o problema apontado pelo ministro Moraes, bem como as críticas que o app sofre.

Com o YouTube não seria muito diferente. A plataforma diz que apenas 1% do conteúdo que hospeda em todo mundo é de baixa qualidade. Então, se é pouco, porque não enfrentá-lo com unhas e dentes?

Pareceu-me para lá de curioso o fato de que as duas empresas se orgulharam dos anúncios que fizeram. Entendo que, surpreendentemente, promover um ambiente digital mais saudável e honesto parece ter virado um bônus, não uma meta objetiva de cada uma dessas companhias. Acho ruim e triste. Estou errada?

Cristina Tardáguila é diretora sênior de programas do ICFJ e fundadora da Agência Lupa