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Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Novidades do WhatsApp podem acelerar a desinformação. Há tempo de ajustar

Comunidades do WhatsApp - Divulgação WhatsApp
Comunidades do WhatsApp Imagem: Divulgação WhatsApp
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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

14/04/2022 12h10

As novidades de produto anunciadas pelo WhatsApp há poucos minutos - e detalhadas pelo UOL neste link - vão impactar a luta contra a desinformação em pelo menos quatro aspectos. O principal deles é a possibilidade de ampliar em ao menos 10 vezes a velocidade com que uma informação circula pelo aplicativo - como explico a seguir.

De acordo com a empresa, as novíssimas "comunidades do WhatsApp" - que vão reunir até dez grupos de conversas e que só devem chegar ao Brasil em novembro (depois das eleições, mas antes da posse presidencial) - ainda estão "no início do desenvolvimento" e há espaço para que ajustes sejam feitos.

É bom, portanto, que quem se interessa por ou se preocupa com o combate à desinformação reflita sobre as mudanças anunciadas e traga propostas concretas capazes de adaptá-las à realidade brasileira.

"Queremos impedir que as comunidades se tornem um lugar onde a desinformação viral ou o conteúdo abusivo prosperem", diz o WhatsApp.

Então é hora de prestar atenção nos quatro pontos a seguir. De longe, são os mais preocupantes.

Ponto 1: Hoje, com apenas dois cliques, uma mensagem de WhatsApp chega a, no máximo, 512 pessoas (reunidas em dois grupos). Com a novidade, poderá chegar a 5 mil (duas comunidades).

O WhatsApp foi claro com relação aos motivos que o levam a apostar em comunidades. Sabe que outros aplicativos (como Telegram e Discord) ganham terreno por oferecer chats capazes de reunir milhares de pessoas. Mas façamos aqui alguns cálculos, levando em consideração que o WhatsApp é - de longe - o aplicativo de mensagens mais usado no Brasil.

Segundo anunciado pela empresa, em breve os usuários do WhatsApp poderão organizar seus grupos em "comunidades". Qualquer indivíduo poderá criar quantas comunidades quiser e terá o direito de adicionar a cada uma delas até dez grupos de conversas (cada grupo só pode pertencer a uma comunidade). Até aí, tudo ok. O caos no WhatsApp pode ser mesmo enorme.

Mas, ainda de acordo com a empresa, os usuários que virarem administradores de comunidade terão acesso exclusivo a uma espécie de "quadro de avisos comunitários" (chamado grupo de avisos), de onde poderão postar - de forma simultânea - um mesmo conteúdo para todos os grupos que integram aquela comunidade.

Se essa comunidade estiver "cheia" (com dez grupos que contenham 256 membros cada um), esse único administrador conseguirá falar com 2.560 pessoas com apenas um clique. Hoje em dia, com um clique, um usuário do WhatsApp fala com - no máximo - os 256 membros de um grupo.

Ainda segundo o WhatsApp, as mensagens postadas como avisos comunitários poderão ser reencaminhadas uma vez (uma única, reforça a empresa). Mas, se esse reenvio for feito para outra comunidade "cheia", o administrador terá falado com mais de 5 mil indivíduos com apenas dois cliques (o de publicar na primeira comunidade e o de encaminhar para a segunda). Hoje, com dois cliques, um usuário do WhatsApp fala com, no máximo, 512 pessoas.

Por fim, é fato que o WhatsApp pretende fazer "aumentos incrementais" no limite de pessoas em um grupo. Avalia, inclusive, a possibilidade de passar de 256 para 512 (o dobro). Se isso acontecer, e as comunidades já estiverem ativas, a velocidade com que a informação circula no aplicativo poderá ficar 20 vezes maior. Com dois cliques, um único administrador poderá alcançar mais de 10 mil usuários ao mesmo tempo. Imagine isso na mão de malfeitores.

Ponto 2: Postagens feitas no grupo de avisos não devem ter a marcação de "mensagens virais", mesmo podendo alcançar 5 mil pessoas.

Em 2020, quem combate desinformação no WhatsApp - aplicativo que garante criptografia de ponta a ponta - comemorou a decisão da empresa de marcar com duas setas duplas cinzentas os conteúdos "reencaminhados muitas vezes". Desde então, este sinal tem sido um dos mais usados pelos fact-checkers para priorizar materiais a serem verificados (os que viralizam mais costumam ser analisados antes).

Na novidade desta quinta-feira (14), o WhatsApp não indicou com clareza se essa marcação será aplicada às mensagens postadas pelos administradores como avisos comunitários (no grupo de avisos). Levando em consideração o ponto 1 (descrito acima) é provável que esses conteúdos sejam virais. Logo é importante que o aplicativo reflita sobre isso e não tire dos fact-checkers (e de todos usuários) um sinal tão relevante.

Ponto 3: Não haverá restrição quanto ao nome das comunidades. Veremos o nascer de "fake communities"?

Em seu anúncio, o WhatsApp foi claro: as comunidades são uma ferramenta privada e não haverá nenhum mecanismo de busca que permita saber que comunidades já existem. E é aqui que instituições, empresas, marcas e produtos correm grande risco. Imaginemos duas situações.

Na primeira, o administrador (um malfeitor) cria uma comunidade com o nome de um banco. Passa meses atraindo novos membros para esse espaço, usando a marca e a reputação da entidade financeira. Se um dia esse administrador postar no grupo de avisos um link capaz de roubar dados pessoais (phishing), por exemplo, poderá enganar os membros mais desavisados da comunidade e ainda dar dor de cabeça ao banco real - que não tinha qualquer conexão com aquela comunidade.

Na segunda situação, o administrador cria uma comunidade com o nome de um colégio. Reúne ali grupos de mães e pais e de alunos. Se o dono desse espaço postar uma data errada para o início das férias no grupo de avisos, o impacto provavelmente reverberará na direção real do colégio, que - novamente - nada teve a ver com a desinformação.

Para proteger instituições, marcas e produtos, seria importante que o WhatsApp pensasse em formas de restringir ou de validar o nome dado às comunidades. Que tal restringir o uso de nomes próprios ou registrados ao WhatsApp Business? O sistema que hoje atende a empresas e organizações em geral teria a possibilidade de criar comunidades em seus nomes ante a apresentação da devida documentação.

Ponto 4: Os administradores de comunidade poderão deletar conteúdo. Mas terão que se justificar? Haverá mecanismos de apelação?

Administrador de comunidades do WhatsApp poderão deletar conteúdo postado - Divulgação WhatsApp - Divulgação WhatsApp
Comunidades do WhatsApp 2
Imagem: Divulgação WhatsApp

Ao liberar a criação de comunidades, o WhatsApp vai empoderar os administradores. Eles terão, por exemplo, o direito de apagar conteúdos ali postados. Mas e se esse poder servir para silenciar o contraditório? O aplicativo prevê uma forma de apelação para aqueles que tiverem conteúdos deletados?

São discussões desse tipo que precisam ser feitas - desde já e de forma transparente. O tempo voa, e novembro está logo ali.

WhatsApp, vamos falar?

Cristina Tardáguila é diretora sênior de Programas do ICFJ e fundadora da Agência Lupa