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Fabiana Moraes

Estreia nas eleições de Recife o filme "Quem Vai Ficar com Jair Bolsonaro?"

Jair Bolsonaro, presidente e galã deste enredo, arrasa corações de candidatos à Prefeitura de Recife - CAROLINA ANTUNES/PR
Jair Bolsonaro, presidente e galã deste enredo, arrasa corações de candidatos à Prefeitura de Recife Imagem: CAROLINA ANTUNES/PR
Fabiana Moraes

Jornalista com doutorado em Sociologia, tem pesquisas acadêmicas e reportagens sobre hierarquização social, processo de celebrificação do cotidiano, pobreza e a relação entre jornalismo e subjetividade. É vencedora de três prêmios Esso, além do Petrobras de Jornalismo, Embratel , Cristina Tavares e Comissão Europeia de Turismo. É professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE/CAA). Lançou cinco livros: Os Sertões (Cepe, 2010), Nabuco em Pretos e Brancos (Massangana, 2012); No País do Racismo Institucional (Ministério Público de Pernambuco, 2013); O Nascimento de Joicy (Arquipélago Editorial, 2015); Jormard Muniz de Britto - professor em transe (Cepe, 2017). Conselheira da Agência Publica.

Colunista do UOL

25/10/2020 04h02

O poder é aquela propriedade mágica que faz com que um cara meio comum, sem grandes atributos físicos ou intelectuais, seja de repente encarado como aquele tipão com quem a gente sairia feliz na foto. Um pitéu do quilate de Denzel Washington, Javier Barden, Antônio Fagundes (enquanto Ivan na novela Vale Tudo, perceba) ou o MC Negão da BL.

Vejam, por exemplo, o caso do presidente Jair Bolsonaro: muito branco, alto e magro, as canelas finas, era chamado de "palmito" durante a sua juventude. Já adulto, deputado federal, era comum vê-lo falando para plateias mirradas ou mesmo sozinho no plenário da Câmara dos Deputados, como aconteceu em 2010.

Dez anos depois, o mandatário sem partido, apesar de comandar o executivo de um país marcado por fogo, desmatamento, coronavírus e dinheiro na cueca, é disputado por um leque interessantíssimo de candidatos e candidatas na disputa eleitoral de 2020. Alguns deles comungam há tempos da mesma cartilha "patriótica", enquanto outros estão só agora instrumentalmente debutando a estilística do "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".

É o caso do ex-ministro da educação (governo Michel Temer), Mendonça Filho (DEM-PE), candidato à prefeitura do Recife. Na convenção que certificou seu nome e o de Priscila Krause como vice-prefeita, o candidato deixou tocar alto um jingle que dizia "Mendonça é Bolsonaro, Bolsonaro é Mendonça", cantado pelo músico Alcymar Monteiro.

Quando foi questionado a respeito do inusitado match musical com o presidente, o ex-ministro desconversou: avisou que a peça foi um presente do amigo cantor e que alguns eleitores pediram para o jingle constar naquele encontro, especificamente. Antes disso, no entanto, a coligação do DEM no pleito, formada pelo PTB, PL e PSDB, foi batizada de "Recife acima de tudo", claramente inspirada no maior hit bolsonarista. Não se sabe se foi um amigo de Mendoncinha quem deu o nome e ele, de coração cândido, apenas aceitou.

Cinco pretendentes para o capitão

As candidaturas de centro-direita na disputa eleitoral que acontece no Recife servem de termômetro desse fenômeno nacional que é o súbito amor de tantos políticos pelo presidente: nada menos que 4 candidatos e uma candidata piscam o olho em direção ao presidente. São cinco pedidos de namoro até agora ignorados. E isso só em uma cidade.

O pleito se tornou, no Brasil, uma espécie de versão política do filme "Quem vai ficar com Mary?", obra dos irmãos Farrelly lançada em 1998 e que mostra a disputa de toda uma sorte de pretendentes pelo amor de Cameron Diaz.

"Ele agora quer ser o Jairzinho, não é? Diz que vai 'acabar com a indústria das multas', diz que é 'Recife acima de tudo...'", comenta o senador Humberto Costa (PT) referindo-se à Mendonça, que perdeu, ao lado de Bruno Araújo, a vaga no Senado na disputa de 2018 justamente para a chapa Humberto-Jarbas Vasconcelos (coligação Frente Popular de Pernambuco).

Bolsonarista "da gema"

Candidato pelo mesmo PRTB do General Mourão, Marco Aurélio Mendes é outro que não poupa Mendonça: puxa o passado recente para explicar porque o ex-ministro não é, definitivamente, um bolsonarista "da gema".

"Ele queria ser vice-presidente na chapa de Geraldo Alckmin, apoiou Mandetta na confusão de sua saída do Ministério da Saúde? e tem mais: por que Bolsonaro não pediu voto para ele no momento de sua candidatura ao Senado? Cadê? Direita raiz nessa disputa só tem mesmo eu", assegura o candidato, que continua: "Nunca levantei bandeira gay — mas nada contra."

Ele anuncia que já tem o apoio de Mourão e "aguarda humildemente" uma manifestação do presidente. Mas está resignado: "Ele tem deixado claro que não quer botar a cara nesse primeiro turno".

"Quero um Recife verde e amarelo"

Outro candidato que assegura ser Bolsonaro desde pequenininho e deseja ansioso por um afago vindo de Brasília é o Coronel Feitosa (PSC) — o nome escolhido por ele nesta eleição já diz um bocado. Em seu quarto mandato como deputado estadual, Feitosa é na verdade tenente-coronel da reserva da Polícia Militar de Pernambuco, o que faz com que o concorrente Marco Aurélio o chame de "faketosa". "Tenente-coronel é uma patente, coronel é uma outra" (de fato, a primeira é um degrau antes da segunda).

"Votei nos dois turnos em Bolsonaro. Quero um Recife verde e amarelo, forte e cristão. Meu alinhamento é ideológico, profissional e histórico", explica o candidato do PSC, que espelha sua trajetória à do presidente sem partido. "Como ele, entrei na vida política para defender a minha categoria, a polícia militar".

Mas o fato é que o tenente-coronel já teve um chamego gostoso com o partido que hoje encabeça a corrida até a prefeitura na capital pernambucana, o PSB pelo qual concorre João Campos: já foi secretário de Turismo de Pernambuco e já foi secretário de Saneamento da Cidade do Recife em gestões do PSB. Também esteve à frente da superintendência da Infraero entre 2003 e 2006 (governo Lula).

"O pessoal que está aí falando que é Bolsonaro mente. Quando Moro saiu do governo eu fui o único aqui que ficou de lado do presidente. Também quando ele defendeu o uso da cloroquina. Agora, pergunte quem Mendonça ou Patrícia defenderam".

Ontem com Moro, hoje com o Mito

Feitosa chama atenção para uma interessante figura nesse pleito, a Delegada Patrícia Domingos (Podemos). Tentei conversar algumas vezes com a candidata, mas ela preferiu um contato mais frio: pediu que as perguntas fossem enviadas por email. As respostas chegaram e, ao acompanhar entrevistas suas nas rádios e sites locais, percebi que trata-se de um texto bastante elaborado, seco e sem muito espaço para novidades.

Eu e várias colegas jornalistas perguntamos qual sua opinião ou relação com o governo Bolsonaro. Quase sempre, a resposta foi essa: "Como em toda gestão, há acertos e ajustes que precisam ser feitos. Na minha opinião, há mais coisas boas. Uma delas é o auxílio emergencial que tem atendido milhões de brasileiros durante a pandemia".

É bastante sintomático que a Delegada aponte como o grande acerto do presidente uma medida que na verdade veio do Congresso e foi referendada fortemente pela oposição (recordar é viver: no início da pandemia no Brasil, Bolsonaro e Guedes insistiram em pagar apenas R$ 200 ao mês durante três meses).

Apesar de poupar — agora — qualquer crítica a Jair Bolsonaro, Patrícia Domingos emitiu uma nota de apoio quando Sergio Moro saiu ruidosamente do Ministério da Justiça. Nela, se solidariza com o ex-juiz: "Começamos essa guerra lá atrás e hoje demos um passo histórico, que mudará para sempre nossa percepção da administração pública. Seguiremos firmes no combate à corrupção. Não vão nos parar!".

Bem, talvez a candidata apostasse ali que Moro sairia como herói da coisa toda, mas a realidade é que o agora advogado derreteu como um Cremosinho e não apareceu apoiando ninguém. Restou a ela o hoje inimigo do homem a quem defendeu em sua nota.

Nem tchuns

Finalmente, há outro pretendente ao coração militar de Jair Bolsonaro nesse filme: Carlos Andrade Lima, do PSL, o partido que serviu de nave — posteriormente abandonada — para o presidente chegar até o Planalto. O candidato diz que tem apreço especial pelo presidente, votou nele e o apoia desde seus tempos de deputado federal. "Adoraria ter o seu apoio", disse em uma entrevista à Rádio Jornal.

Mas apesar das notícias de reaproximação entre Bolsonaro e o PSL, o fato é que, também para Carlos e a sua bem aparada barba, o presidente nem tchuns. Ele provoca: "se cinco candidatos estão dizendo por aí que têm o apoio do presidente, pelo menos quatro estão mentindo, não é?"

Quando pergunto a ele sobre haver um gap, um fosso, um vale, um Atlântico, entre o liberal raiz que ele diz ser e o histórico do presidente da República, ele rapidamente saca o nome de Paulo Guedes. "É um governo liberal, é claro que é, o ministro da economia é um liberal". Lembro que Guedes está cada vez menor do governo, o Centrão é quase um vice-presidente e que fala-se no risco de furar o olho do sacrossanto rigor fiscal. "Não acredito que ele vá desrespeitar o teto de gastos".

Me mostro cética sobre a manutenção do auxílio emergencial versus o texto acalma-mercado, e pergunto novamente se de fato podemos falar em um governo liberal para definir Bolsonaro. Carlos saca outro nome conhecido da manga: Voltaire. "Eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo".

Voltaire na verdade nunca disse as palavras acima, mas sim a sua biógrafa, Evelyn Beatrice Hall (a história está contada no livro "They Never Said It").

Não tem problema. À política, ao amor e à filosofia, sempre estiveram reservadas a farsa e a desilusão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.