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Fabiana Moraes

Negro bom é negro morto: já vimos João Alberto ser assassinado, vocês sabem

Fabiana Moraes

Jornalista com doutorado em Sociologia, tem pesquisas acadêmicas e reportagens sobre hierarquização social, processo de celebrificação do cotidiano, pobreza e a relação entre jornalismo e subjetividade. É vencedora de três prêmios Esso, além do Petrobras de Jornalismo, Embratel , Cristina Tavares e Comissão Europeia de Turismo. É professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE/CAA). Lançou cinco livros: Os Sertões (Cepe, 2010), Nabuco em Pretos e Brancos (Massangana, 2012); No País do Racismo Institucional (Ministério Público de Pernambuco, 2013); O Nascimento de Joicy (Arquipélago Editorial, 2015); Jormard Muniz de Britto - professor em transe (Cepe, 2017). Conselheira da Agência Publica.

Colunista do UOL

20/11/2020 11h39

Fui marcada por diversas pessoas em redes sociais no vídeo no qual João Alberto Silveira Freitas é espancado até a morte por dois seguranças no estacionamento de um Carrefour em Porto Alegre.

Não vi o vídeo nem uma única vez.

Acredito que muitas pessoas negras também tenham se recusado a olhar as imagens, seja pelo teor de enorme violência, seja pelo fato de a cena ser na verdade uma espécie de looping: no limite, ela já está colada à nossa retina.

Nós já vimos João Alberto ser assassinado, vocês sabem.

Ele morreu em fevereiro do ano passado, quando um segurança deitou-se sobre seu corpo o asfixiando até a morte.

Morreu em maio deste ano com um policial ajoelhado sobre seu pescoço, nos EUA.

Morreu arrastado por um carro da PM no Rio de Janeiro, em 2014.

Morreu a tiros da PM em 2016 enquanto andava de bicicleta no Ibura, Recife.

A lista é longa, mas vocês já entenderam onde quero chegar.

Tem gente que chama de "fatalidade"

No país no qual uma uma instituição federal — a Fundação Palmares — decide que vai homenagear apenas pessoas negras que já faleceram, as mortes de João Alberto, Pedro Gonzaga, Cláudia Ferreira da Silva, Mario Andrade de Lima, Agatha Vitoria Sales Félix, João Pedro Mattos Pinto, Miguel Otávio Santana da Silva (e etc., e etc., e etc.) soa, para muitos, normal: tem gente que chama de "fatalidade".

Todos esses "fenômenos" nos dizem, ao seu modo, que no Brasil negro bom é negro morto.

Sim, há o risco de eu estar exagerando. Negros vivos também são extremamente necessários: agora, na pandemia, eles estavam ali, resilientes e fortes, formando boa parte do batalhão dos "serviços essenciais". Limpando o lixo das ruas, entregando comida, faxinando casas e hospitais, cuidando de famílias muito ocupadas e exaustas em seus home offices.

Negros e negras exaustos/as são importantes para mantermos a tradição.

Vamos esperar Zumbi?

Negros e negras exaustos/as mantêm a roda girando: com a ajuda deles, levamos nossa filha no balé, fazemos nosso curso de inglês, voltamos mais tarde do trabalho, conseguimos 40 minutos na academia, tentamos um intercâmbio lá fora.

Às vezes eles conseguem uma folga, uma grana e vão às compras.

Se alguns deles morrem — em uma condução voltando para casa ou sendo espancados em um supermercado — é uma fatalidade.

João Alberto é o nosso "novo preto assassinado" na triste galeria brasileira. Vai passar o dia sendo citado no Twitter, vai ser sintetizado em uma sintomática hashtag #eternonegobeto. Nego Beto.

O que vamos fazer agora? Vamos mesmo esperar quando Zumbi chegar?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.