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Humberto Costa, Marília Arraes e um PT na crise dos 40

Faria bem a esse quarentão chamado Partido dos Trabalhadores abandonar, entre outras coisas, o machismo - REUTERS/Amanda Perobelli
Faria bem a esse quarentão chamado Partido dos Trabalhadores abandonar, entre outras coisas, o machismo Imagem: REUTERS/Amanda Perobelli
Fabiana Moraes

Jornalista com doutorado em Sociologia, tem pesquisas acadêmicas e reportagens sobre hierarquização social, processo de celebrificação do cotidiano, pobreza e a relação entre jornalismo e subjetividade. É vencedora de três prêmios Esso, além do Petrobras de Jornalismo, Embratel , Cristina Tavares e Comissão Europeia de Turismo. É professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE/CAA). Lançou cinco livros: Os Sertões (Cepe, 2010), Nabuco em Pretos e Brancos (Massangana, 2012); No País do Racismo Institucional (Ministério Público de Pernambuco, 2013); O Nascimento de Joicy (Arquipélago Editorial, 2015); Jormard Muniz de Britto - professor em transe (Cepe, 2017). Conselheira da Agência Publica.

17/10/2020 04h02

Se eu pudesse transformar hoje o Partido dos Trabalhadores (PT) em um personagem literário, ele seria um cara nascido em fevereiro de 1980, 40 anos, uns fios brancos na barba. Um homem que vai entrando meio dividido em uma nova fase da vida, quando algumas certezas começam a capengar e outras perspectivas surgem animando o horizonte.

Esse boy tem, pairando sobre sua cabeça, diversas insistentes vozes: de um lado, flutuam nomes como o do senador Humberto Costa e o do ex-senador Lindbergh Farias. Do outro, aparecem a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, e o ex-presidente Lula.

A primeira dupla diz: pessoal, vamos formar uma grande aliança de esquerda e não lançar tantos candidatos a prefeituras em 2020.

A segunda replica: mas não tem perigo, meus amores: o partido vai ter candidato próprio em uma lapada de cidades brasileiras, sim.

Nosso quarentão dividido coça a barba: não sabe se tudo isso é ID, se é Ego ou Superego - ou se, afinal, é apenas a Real Política.

Esta semana, foram as vozes da primeira dupla as responsáveis por tacar um foguinho no noticiário: Lindbergh, candidato a vereador no Rio de Janeiro, sugeriu em uma entrevista ao site Brasil 247 que Jilmar Tatto (1% das intenções de voto) desistisse da candidatura ao cargo de prefeito de São Paulo para apoiar Guilherme Boulos, do PSOL (12% das intenções de voto).

Costa pede "generosidade" ao PT

No Recife, o senador Humberto Costa novamente expressou seu certo ceticismo com a candidatura de Marília Arraes à prefeitura, que oscila entre segundo e terceiro lugar nas pesquisas. Era no apoio do PT a João Campos, em primeiro lugar na disputa, que Humberto apostava para a legenda se fortalecer no pleito de 2022.

Mas não foi isso o que Lula e parte daquele que é o maior partido de esquerda da América Latina (1,5 milhão de filiados) vaticinaram — e essa posição e seus reflexos daqui a dois anos podem ser o início de uma revisão mais profunda que o quarentão deverá fazer.

"Faltou generosidade política ao PT", disse Humberto Costa em entrevista ao UOL momentos antes de seguir, no Recife, para a inauguração do comitê eleitoral de seu filho Henrique Costa, candidato a vereador pelo mesmo partido.

"Qual a necessidade de ter candidato em todo Brasil, de Leste a Oeste, quando [o PT] poderia ser mais generoso em alguns lugares e construir um caminho melhor para 2022? Acho que quiseram transformar essa eleição em algo muito difícil. Deveríamos ter uma campanha nacionalizada contra Bolsonaro, juntar toda esquerda. Não acho que houve disposição do PT para seguir esse caminho."

Na boca miúda, rumores de fogo amigo

Na capital pernambucana, não são poucos os boatos de que Humberto e ainda nomes como João da Costa (candidato a vereador e ex-prefeito do Recife) estariam promovendo uma espécie de fogo amigo contra Marília, que, se eleita, será a primeira mulher a governar o município.

Um outro personagem petista que bate de frente com a neta de Miguel Arraes é Oscar Barreto, que na última quinta-feira (15) entregou o comando da Secretaria de Saneamento do Recife sob protestos: declarou que estava cumprindo, a contragosto, uma determinação do diretório nacional.

O caso é que Barreto era secretário de uma prefeitura comandada por Geraldo Julio, do PSB, mesmo partido do concorrente João Campos. "Não vamos dar trégua a uma campanha que não tem política, cor e lado", disse consternado o agora ex-secretário, se referindo à sua colega de partido.

Nesse sentido, não deixa de ser bastante sintomático observar como a insatisfação com uma decisão do PT nacional — ou seja, com o endosso de Lula — não seja dirigida às próprias fontes, mas especialmente à candidata Marília Arraes.

Ataques pessoais

Aliás, Humberto também concorda com o desembarque de Oscar Barreto: para ele, era uma situação incômoda para ambas as partes. Outro crítico da candidatura de Marília, o petista

Dilson Peixoto, secretário de Desenvolvimento Agrário de Pernambuco (o governador é Paulo Câmara, também do PSB), segue em seu cargo.

Foi Dilson que, há um ano, recebeu uma lapada do PT nacional após chamar Marília de "mimada" e "amadora" em um programa de rádio, o que lhe valeu uma nota de repúdio assinada por Gleisi Hoffmann e Paulo Pimenta (então líder do PT na Câmara dos Deputados).

Nesse sentido, não deixa de ser bastante sintomático observar que a insatisfação com a atuação da deputada federal dentro do partido não seja discutida de maneira profissional, e sim através de ataques pessoais.

Só trabalho aqui, moça

Voltando a Humberto: o senador esteve, até agora, em apenas um ato político após a convenção que confirmou o nome da candidata. Foi uma carreata, no dia 10 de outubro, na qual também estava presente o seu filho Henrique. Marília, por sua vez, esteve terça (13) na inauguração do comitê do candidato a vereador. Foram dois encontros. Fala-se em aproximação, embora o senador diga que sempre cumpriu a decisão partidária, mesmo discordando.

"Eu tenho uma trajetória de muitos anos no PT, sou fundador. Depois que veio a posição definitiva, nacional, não existe mais espaço para discussão, estou naturalmente cumprindo esta decisão".

Essa postura, digamos, técnica, tem seus limites. Recupero a crítica de Oscar Barreto — a de que Marília estaria "escondendo" o partido ao adotar, por exemplo, a cor branca em parte de seu material de campanha. O senador explica que não teve acesso às estratégias adotadas na corrida eleitoral, mas lembra que pode ser um erro colocar no armário o nome de Lula e do PT.

"O Datafolha mostra que 35% da população da cidade teria mais vontade de votar em um candidato apoiado por Lula. É um capital político que deve ser usado a nosso favor", diz ele, criticando ainda a falta de referências às administrações do PT na capital de Pernambuco (João Paulo, entre 2001 e 2007, e João da Costa, de 2008 a 2011).

Currículos

Na cidade, há uma avaliação comum de que, principalmente no governo do primeiro, a cidade teve melhoras substanciais. "O PT não saiu porque tivesse feito uma má gestão. Nossos problemas foram outros, foram problemas políticos. Outras forças — o PSB principalmente — se aproveitaram da nossa desunião, da briga interna, e ocuparam um espaço que era nosso."

(Em tempo: esta semana, a campanha de Marília Arraes veiculou um vídeo de Lula apoiando a candidata e sublinhando que ela é "boa de briga". Há rumores de que o ex-presidente irá ao Recife).

A pátina técnica adotada por Humberto deixa definitivamente de servir como recurso quando pergunto ao senador se ele acredita que o candidato do PSB para o qual desejou o apoio de seu partido terá, caso eleito, condições de realizar um bom governo. Sua recentíssima participação da vida pública e eletiva brasileira é, faz sentido, fonte de dúvidas: o primeiro cargo público do João Campos foi como chefe de gabinete do governador Paulo Câmara. De lá, ele já seguiu direto, em 2018, para o Congresso Nacional.

"O que posso avaliar é que ele é uma pessoa muito jeitosa politicamente, tem boa capacidade de articulação. Nesses dois anos [no Congresso Nacional] já é alguém com destaque, com um certo respeito. Eu próprio participo da frente que ele puxou, a Frente Parlamentar em Defesa da Política de Renda Básica. Agora, acho que isso [a pouca experiência] também se aplica para Marília, não é? Ela é respeitada na nossa bancada, ocupa espaço no Congresso, teve nesse mandato um protagonismo".

Um homem -- ou um partido -- desconstruído

Marília e João são de fato jovens, mas a comparação não parece exatamente justa. A candidata foi três vezes eleita vereadora do Recife (de janeiro de 2009 a janeiro de 2019). Entre 2013 e 2014, foi também secretária municipal de Juventude e Emprego na gestão, ora vejam só, de Geraldo Julio.

Nesse sentido, não deixa de ser bastante sintomático observar como sua experiência não é, entre os colegas, um capital usado a seu favor.

(...)

Se eu pudesse transformar hoje o Partido dos Trabalhadores em um personagem literário, ele seria um cara nascido em fevereiro de 1980, 40 anos, uns fios brancos na barba, meio dividido entre ser coletivo ou seguir em carreira solo.

Mas ele também seria seguramente alguém mais disposto a conversar, superando o anacronismo machista, com qualquer candidata mulher.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado, Marília Arraes foi secretária municipal de Juventude e Emprego entre 2013 e 2014, na gestão Geraldo Julio. O texto foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.