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Felipe Moura Brasil

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lima Barreto contra Lula e Bolsonaro

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Felipe Moura Brasil

Felipe Moura Brasil é âncora da BandNews FM e colunista do UOL. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria Jornalista Influenciador Digital. Maior influenciador político do Brasil no Twitter, de acordo com estudo da empresa de big data Stilingue. Trabalhou nas revistas Veja e Crusoé, no site O Antagonista e na rádio Jovem Pan, onde também foi diretor de Jornalismo. Reúne suas várias frentes de trabalho em www.felipemourabrasil.com.

Colunista do UOL

06/10/2021 05h03

A independência de pensamento e de espírito em tempos de disputas de poder entre facções rivais, muitas vezes similares em seus métodos, é tema recorrente dos meus artigos, sobretudo nesta época em que lulismo e bolsonarismo tentam manter os brasileiros em suas respectivas realidades paralelas e abafar qualquer divergência sã no mundo real.

Lima Barreto afirmou há mais de cem anos que "a covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos de independência; ela só quer acompanhadores de procissão, que só visam lucros ou salários nos pareceres".

"Não há, entre nós, campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. Tudo aqui é feito com o dinheiro e os títulos. A agitação de uma ideia não repercute na massa e, quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa, trata o agitador de louco", lamentou ele, na crônica "Elogio da morte".

Para o escritor, todas "as grandes reformas no mundo", que trazem "melhoria das condições da existência da nossa triste Humanidade", "têm sido feitas por homens, e, às vezes mesmo mulheres, tidos por doidos".

Barreto contrapôs esses reformadores a Panurgo, personagem do escritor francês François Rabelais conhecido pelo espírito de rebanho: "a divisa deles consiste em não ser panurgianos e seguir a opinião de todos, por isso mesmo podem ver mais longe do que os outros. Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas."

Assim como Joaquim Nabuco, Barreto não apreciava a política partidária, criticava a República proclamada em 1889 e ressaltava qualidades do Império, como deixou claro, a seu modo, na crônica "A política republicana", publicada em 19 de outubro de 1918.

"Não há assunto que mais me repugne do que aquilo que se chama habitualmente política. Eu a encaro, como todo o povo a vê, isto é, um ajuntamento de piratas mais ou menos diplomados que exploram a desgraça e a miséria dos humildes.

(...) No Império, apesar de tudo, ela tinha alguma grandeza e beleza. As fórmulas eram mais ou menos respeitadas; os homens tinham elevação moral e (...) muitos que passaram pelas maiores posições morreram pobríssimos e a sua descendência só tem de fortuna o nome que recebeu.

O que havia neles não era a ambição de dinheiro. Era, certamente, a de glória e de nome (...). A República, porém, (...) transformou completamente os nossos costumes administrativos e todos os 'arrivistas' se fizeram políticos para enriquecer."

Barreto fez então uma síntese ainda mais visionária sobre o sistema, os governantes e suas claques:

"A República no Brasil é o regime da corrupção. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e, para que não haja divergências, há a 'verba secreta', os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência."

Na visão do escritor, "a vida, infelizmente, deve ser uma luta; e quem não sabe lutar não é homem". Ele repudiava a vassalagem e as boquinhas decorrentes dela: "A gente do Brasil, entretanto, pensa que a existência nossa deve ser a submissão aos Acácios e Pachecos, para obter ajudas de custo e sinecuras. Vem disto a nossa esterilidade mental, a nossa falta de originalidade intelectual, a pobreza da nossa paisagem moral e a desgraça que se nota no geral da nossa população."

Para Barreto, "parecia que o Império reprimia tanta sordidez nas nossas almas. Ele tinha a virtude da modéstia e implantou em nós essa mesma virtude; mas, proclamada que foi a República, ali, no Campo de Santana, por três batalhões, o Brasil perdeu a vergonha e os seus filhos ficaram capachos, para sugar os cofres públicos, desta ou daquela forma."

Em suma: "Não se admite mais independência de pensamento ou de espírito. Quando não se consegue, por dinheiro abafa-se. É a política da corrupção, quando não é a do arrocho."

Cento e três anos depois, nada mudou, a não ser a profusão de cargos de livre nomeação para a companheirada que não sabe conquistar por si e a magnitude das "verbas secretas" dos cofres públicos, que no Parlamento já configuram até orçamentos sigilosos deste ou daquele ministério e que também transformaram parte do mercado da comunicação em uma indústria de capachos, responsáveis pela propaganda do ajuntamento de piratas junto aos brasileiros submissos, acompanhadores de procissão.

Lulismo e bolsonarismo, com suas compras de apoios parlamentares e midiáticos, além das mansões de seus líderes e filhos, ilustram as teses centenárias barretianas, inclusive em relação a seus gurus econômicos. O ex-presidiário Lula teve dois ministros da Fazenda presos, Antonio Palocci e Guido Mantega, antes do avanço da impunidade, enquanto o ministro da Economia do governo Bolsonaro, Paulo Guedes, faturou aparentemente 14 milhões de reais em uma offshore em paraíso fiscal, graças a alta do dólar resultante de decisões dele mesmo no cargo, no qual ainda foi contra a regra que tributaria recursos de brasileiros (como ele) em paraísos fiscais. Para Guedes, pelo visto, imposto e inflação no dos outros é refresco.

Lima Barreto, com sua independência de pensamento e de espírito, não seguiu a opinião de todos como Panurgo, por isso mesmo viu mais longe do que os outros.

A terceira via só terá sucesso se superar a covardia mental e moral que ele apontava.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL