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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em acordo com Austrália, Biden deixa claro que "América em primeiro lugar"

O presidente da França Emanuel Macron - Ian Langsdon/REUTERS
O presidente da França Emanuel Macron Imagem: Ian Langsdon/REUTERS
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

30/09/2021 09h57

A expressão "amigos, amigos, negócios à parte" sempre coube muito bem para as análises de política internacional. Frequentemente temos discutido nas colunas por aqui sobre o imperativo dos interesses objetivos dos Estados no desenho de suas políticas externas, mesmo diante de aliados históricos, parceiros estratégicos ou interlocutores com quem se compartilham ideias, valores e visões de mundo. O estabelecimento do acordo Aukus, entre Estados Unidos, Reino Unido e Austrália é mais uma demonstração do pragmatismo nesse sentido.

Negociado em segredo e divulgado apenas nas últimas semanas, trata-se de um pacto militar, com vistas a reequilibrar poder na região Indo-Pacífico. Na prática, além de viabilizar a construção de submarinos de propulsão nuclear na Austrália a partir de tecnologia norte-americana, o acordo gira em torno de ferramentas de cooperação envolvendo inteligência artificial e aspectos ligados à cibersegurança.

Trata-se de mais um movimento claro do governo Biden de contrabalançar os chineses nessa região. É uma resposta aos avanços de Pequim no Mar do Sul da China, uma das rotas comerciais mais importantes do mundo, e das regiões mais propensas ao conflito atualmente. A expectativa é que outras iniciativas lideradas pelos Estados Unidos também sejam anunciadas em breve, particularmente envolvendo Japão e Índia.

Para a Austrália, por sua vez, é não só uma oportunidade de desenvolver a indústria de defesa, como uma forma de responder às sucessivas sanções econômicas impostas pela China nos últimos meses.

A réplica chinesa veio por meio do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do país, Zhao Lijian, que classificou o pacto como um passo que "mina seriamente a estabilidade" do Pacífico, contribuindo para uma corrida armamentista na região.

Para além dessa reação, que foi estridente e dura, como já era de se esperar, chamou a atenção também o incômodo francês logo após o anúncio do Aukus. A França convocou embaixadores nos Estados Unidos e Austrália para esclarecimentos e teve seu presidente, pessoalmente, se manifestando sobre o caso.

O ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, chegou a referir-se ao acordo como uma "facada nas costas" por parte dos Estados Unidos. Isso ocorreu porque os norte-americanos teriam atravessado negociações entre França e Austrália e levado o país europeu, aliado na OTAN, a perder um contrato de construção de submarinos convencionais estimado em 50 bilhões de dólares australianos.

Que Biden não é Trump todos já sabemos. Suas políticas, em geral, divergem em larga medida do antecessor tanto em forma quanto em conteúdo. Nesse caso em particular, está claro que não se trata de uma política de governo, mas de uma ação de Estado. Trata-se de uma continuidade obvia, já que retardar ou impedir uma transição hegemônica é prioridade dos Estados Unidos "no matter what".

Engana-se, portanto, quem espera que o "America First" seja bandeira exclusiva de um ou outro presidente, seja ele democrata ou republicano. Trata-se do imperativo dos interesses objetivos se materializando diante dos nossos olhos. A ver.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL