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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Guerra na Ucrânia reserva desafios crescentes para a União Europeia

6 dez. 2021 - Bandeiras da Ucrânia, da União Europeia e dos Estados Unidos, em Kiev - Gleb Garanich/Reuters
6 dez. 2021 - Bandeiras da Ucrânia, da União Europeia e dos Estados Unidos, em Kiev Imagem: Gleb Garanich/Reuters
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

31/03/2022 07h25

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Todos reconhecem o ineditismo e a audácia do modelo de integração europeu. Estamos diante de uma estrutura que, desde sua origem se desafiou, deixando para trás o foco exclusivo em questões tarifárias e comerciais para abraçar mecanismos intergovernamentais e supranacionais. Ao longo de poucas décadas, países considerados adversários de longa data, encontraram espaço para a cooperação e para o aumento de sua interdependência. A União Europeia dinamizou o fluxo de pessoas, estabeleceu uma moeda única e passou a buscar progressiva integração em questões políticas e sociais. Não é pouca coisa.

Como todo feito humano, no entanto, o projeto europeu não está livre de dificuldades. Com o passar dos anos, e na medida em que novos passos foram sendo dados, tornou-se possível identificar, cada vez com mais clareza, a coexistência entre grupos com visões distintas sobre o bloco, sua razão de ser e seu futuro.

Talvez o ponto alto dessa fragmentação tenha se feito notar pelo momentum criado em função do BREXIT, mas sabemos que diversas insatisfações já existiam antes disso. Mais de um terço dos membros do Parlamento Europeu são considerados "eurocéticos". São lideranças que representam uma parcela de cidadãos incomodados com o alto nível de imigração no continente, promessas não cumpridas pelos governos de centro e mais austeros, e que, a partir da percepção de elevada burocratização e perda de autonomia, se desiludiram com a União Europeia.

A crise na Ucrânia, portanto, acontece em um momento sensível. Primeiro, porque incentiva o olhar dos países para suas próprias vulnerabilidades individuais. "É possível confiar nos aliados?". "Quão arriscado é depender de estratégias de segurança que vêm de fora?". "Não seria o caso de dar um passo na direção de buscar meios próprios de garantir sobrevivência e segurança?". "O mundo da interdependência é mesmo mais estável?". Essas são todas perguntas que, com razão, se tornaram recorrentes no debate público europeu nesse momento.

Não é desprezível também o peso que a nova onda de refugiados, agora vindos da Ucrânia, causará em matéria de política doméstica em vários países do bloco. A polarização é uma realidade na Europa há tempos. Em diversos países, no entanto, crises humanitárias que culminaram no aumento de fluxo de pessoas chegando ao continente, foram vistas como gatilhos para alavancar o discurso anti-União Europeia. Houve o fortalecimento de discursos xenófobos, com reivindicação de reforço das fronteiras e medidas para restringir a imigração. São dignos de nota movimentos nacionalistas e principalmente identificados no campo da direita radical, em países como Áustria, Finlândia, França, Holanda, Itália, Bulgária, Alemanha, Suécia e Bélgica, por exemplo.

Além disso, as reflexões existenciais da União Europeia e de seus líderes passam também pelas assimetrias que o bloco busca acomodar entre os membros, sobretudo no campo econômico, desde sempre. Superado o momento de comoção da guerra no leste europeu, esse tipo de debate será, inevitavelmente, reaberto.

O ingresso de novos participantes na União Europeia nunca foi tarefa fácil. Há profundas disparidades na estrutura dos países que já fazem parte do próprio bloco, uma vez que eles passaram por diferentes padrões e modelos de industrialização, o que leva a dificuldades variadas no processo de integração. Assistimos, há poucas décadas, a crise da dívida pública ou "crise da Zona do Euro", como ficou conhecida, em que houve elevado endividamento, preocupação em relação à solvência dos sistemas bancários europeus e dificuldades no pagamento ou refinanciamento da dívida pública de alguns países sem a ajuda de terceiros. Assistimos também, com isso, o aumento de cobranças mútuas entre os países membros e a contrariedade vocal, por parte de alguns, em atuarem como patrocinadores financeiros do projeto de integração.

Por fim, a guerra na Ucrânia suscita impactos também no que diz respeito a eventuais necessidades de reformas institucionais do bloco. Ainda não está claro qual será o futuro de propostas como, por exemplo a tentativa de esboçar uma Constituição comum ou desenvolver uma política externa e de segurança coletivas. Há quem aposte na atual crise como um evento que torna esse debate propício e que abre margem para avanços nessa arena; há, no entanto, quem arrisque dizer em uma onda de nacionalismos, populismos e de incentivos à desintegração. A ver.