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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Na guerra, Ucrânia volta ao top 10 de receptores de ajuda externa dos EUA

16.mar.2022 - O presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky é aplaudido de pé ao discursar para congressistas dos EUA - J. Scott Applewhite/Pool/AFP
16.mar.2022 - O presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky é aplaudido de pé ao discursar para congressistas dos EUA Imagem: J. Scott Applewhite/Pool/AFP
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

23/04/2022 09h11

É chamada de "ajuda externa" todo o dinheiro, a assistência técnica e demais recursos que um país fornece a outros como forma de apoiar interesses comuns. Normalmente, são doações direcionadas para instituições governamentais, organizações sem fins lucrativos, organismos multilaterais ou para outras entidades locais a fim de reforçar sua capacidade de ação ou reação diante de um desafio estabelecido.

No caso norte-americano, em particular, a ajuda externa costuma estar enquadrada em três categorias: 1) assistência humanitária; 2) assistência ao desenvolvimento; e 3) assistência à segurança. Grosso modo, portanto, ela costuma ocorrer pela via econômica ou pela via militar.

Em geral, os dados mostram que, de todas as regiões do mundo, a África Subsaariana, seguida do Oriente Médio/Norte da África são as regiões que mais recebem recursos dos Estados Unidos. A Europa/Eurásia, por sua vez, a que menos recebe doações.

De todo o orçamento disponível para ajuda externa no último ano, o compilado da ConcernUSA mostra que quase 25% foi direcionado a apenas 10 países, dentre os quais nenhum europeu. Embora os critérios de tabulação e análise das informações levem a rankings ligeiramente diferentes entre si, a lista dos que mais têm recebido recursos na última década inclui, em geral, países como Afeganistão, Congo, Etiópia, Iêmen, Jordânia, Nigéria, Síria, Somália, Sudão e Sudão do Sul.

No caso da Ucrânia, especificamente, o próprio governo norte-americano reporta que desde 1992, a USAID, agência responsável pelo tema, contribuiu com mais de US$ 3 bilhões em assistência. A primeira vista, esse número, quando comparado ao auxílio dado a outros países, não é dos mais expressivos. No entanto, tão logo seja atualizado para incluir o dispêndio ocorrido após a invasão da Rússia de 2022, ele promete atingir patamares dignos de nota.

Desde o período que antecede o ataque, os Estados Unidos estão envolvidos em programas que visam prover segurança energética e cibernética, assegurar o mínimo de infraestrutura e de funcionalidade das redes de comunicação, além de fornecer cuidados médicos primários, alimentos e água potável, bem como contribuir com políticas de refúgio e imigração relacionados à Ucrânia.

Do ponto de vista da articulação internacional, para além das ações centradas em torno do próprio presidente Joe Biden e dos secretários de Estado e Defesa, Samantha Power, a atual administradora da Agência para o Desenvolvimento Internacional e sua vice, Isobel Coleman, já visitaram pessoalmente, desde a invasão russa, aliados como Bélgica, Eslováquia, Geórgia, Moldávia e Polônia.

Elas também participaram de reuniões fundamentais para coordenar uma resposta coletiva à crise no leste europeu. Foram encontros ocorridos no âmbito da ONU (incluindo agências para assuntos humanitários, do Programa Alimentar Mundial e a OMS), diálogos junto ao FMI e Banco Mundial, envolvendo a União Europeia e suas estruturas de comando, bem como organizações internacionais como a Cruz Vermelha. De mesmo modo, elas estiveram com diversas autoridades da Ucrânia, como a Embaixadora nos Estados Unidos Oksana Markarova, membros do parlamento do país, bem como a vice-primeira ministra para a Integração Europeia e Euro-Atlântica, Olga Stefanishyna, e o primeiro-ministro da Ucrânia, Denys Shmyhal. Samantha Power também falou diretamente com autoridades dos seguintes países: Canadá, Emirados Árabes Unidos, Eslováquia, Finlândia, Hungria, Índia, Moldávia, Polônia, Reino Unido, Romênia e Sri Lanka.

Do ponto de vista das ações diretas, a USAID implantou, logo após o início da guerra, uma equipe de resposta a desastres para responder às necessidades humanitárias na Ucrânia. Desde então, anunciou diversos pacotes de ajuda. Segundo o próprio escritório: "os Estados Unidos são o maior doador de assistência humanitária na Ucrânia e forneceram US$ 159 milhões em assistência humanitária geral à Ucrânia desde outubro de 2020". Em algumas poucas semanas depois do início da ocupação russa, os norte-americanos já haviam fornecido mais de US$ 100 milhões adicionais em assistência humanitária para o país.

Além das montas regularmente divulgadas pela vice-presidente Kamala Harris, a USAID também se mobilizou, nesses quase dois meses, para proteger o acesso à Internet na Ucrânia por meio de parceria público-privada com a SpaceX e foi responsável por direcionar US$ 500 milhões para o Fundo Fiduciário Multi-doador do Banco Mundial a fim de ajudar o governo ucraniano a sustentar suas operações. Espera-se que outros US$ 500 milhões em ajuda humanitária devam ser anunciados muito em breve.

Do ponto de vista militar, o presidente Joe Biden divulgou, há poucos dias, que os Estados Unidos enviariam à Ucrânia US$ 800 milhões em assistência de segurança. Outro pacote de mesma monta já havia sido enviado na semana anterior. O envio inclui artilharia pesada e armamento ofensivo. Estima-se que o valor total da assistência de defesa dos Estados Unidos para a Ucrânia desde o início da guerra já tenha sido de aproximadamente US$ 3,4 bilhões.

Vale acompanhar.