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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Conflito na Ucrânia reaquece discussão sobre "caronas" na Europa

08.abr.22 - A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viaja para Kiev, na Ucrânia, enquanto a invasão russa da Ucrânia continua - JANIS LAIZANS/REUTERS
08.abr.22 - A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viaja para Kiev, na Ucrânia, enquanto a invasão russa da Ucrânia continua Imagem: JANIS LAIZANS/REUTERS
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo ?Américas - EUA?, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do ?Em Dupla, Com Consulta?, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

29/05/2022 08h33

Em fevereiro deste ano, a revista The Economist publicou um texto afirmando que a Europa é o continente free-rider das relações internacionais. A expressão, em inglês, costuma ser empregada para referir-se a atores que se beneficiam das ações de terceiros, adquirindo para si vantagens pelas quais não tenha tido de pagar. Seria algo equivalente ao que conhecemos popularmente como "caronas".

A publicação faz uma comparação entre o comportamento dos países e de ciclistas de estrada. Diz que os atletas que ficam sem fôlego "mantêm o ritmo discretamente aconchegando-se atrás de ciclistas mais rápidos" e que "carregados por esse fluxo, é fácil ficarem confortáveis, se não totalmente preguiçosos".

Com o passar o tempo, no entanto, a consequência disso é problemática para todos, afirma a publicação. Os líderes sentem-se não apenas exaustos, mas também incomodados pela sobrecarga que receberam. Os retardatários, por sua vez, também se ressentem por perceber que foram levados por caminhos que não necessariamente eram os de sua preferência.

Do ponto de vista militar, o texto da revista britânica sugere que a Europa pegou carona, nas últimas décadas, no interesse dos Estados Unidos em manter a OTAN, reservando-se a um "papel de apoio" mesmo no contexto de guerras ao seu redor. Do ponto de vista econômico, incluindo ambições ambientais e de bem-estar, o bloco pegou carona na globalização e na desterritorialização das cadeias de produção, que permitiram a importação de produtos e o abastecimento da região a custos baixos e sem expor seu entorno e suas sociedades a condições de trabalho degradantes.

Do ponto de vista político, mundo afora, esse tipo de incômodo com o Europa também já apareceu reiteradamente. Talvez a expressão máxima tenha acontecido durante a gestão Trump, nos Estados Unidos, momento em que, apesar da aliança histórica, os norte-americanos decidiram pressionar os europeus com o objetivo de aumentar o retorno sobre seu investimento militar na região. Trump mantinha uma irritação constante particularmente envolvendo a OTAN, por entender que o arranjo de segurança coletiva beneficiava a todos, mas era predominantemente financiado e mantido por esforços dos Estados Unidos.

No contexto da guerra da Ucrânia, esse tipo de acusação ganhou novo fôlego, passando a incluir a ação de atores que vão do Reino Unido à Turquia. Em alguns casos, remetem a países que praticam modestas sanções contra a Rússia e contribuem com menos suprimentos do que poderiam para a Ucrânia, mas buscam se beneficiar da imagem de pertencer ao bloco ocidental. Em outros casos, são países que tentam utilizar o conflito no leste europeu para alavancar suas próprias pautas geopolíticas, vinculando o conflito com outras agendas de interesse.

Essa é uma pauta que merece ser acompanhada com atenção. Em um mundo polarizado, marcado por ressentimentos e populismos de toda ordem, a pergunta que não quer calar é: até onde o pelotão permanecerá unido?