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Jamil Chade


Operador entrega clientes brasileiros e escapa de pena de prisão na Suíça

Michael Lauber, procurador-geral da Suíça - Reprodução
Michael Lauber, procurador-geral da Suíça Imagem: Reprodução
Jamil Chade Jamil Chade e Federico Franchini

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Jamil Chade e Federico Franchini

Colunista do UOL e colaboração para o UOL

26/02/2020 13h17

Um dos principais operadores do esquema montado pelos ex-diretores da Petrobras e da Odebrecht, o brasileiro Bernardo Freiburghaus foi condenado pela Justiça na Suíça por sua participação na lavagem de US$ 60 milhões.

Conforme a coluna revelou em janeiro, o processo é o primeiro a ir aos tribunais no país europeu, depois de seis anos de investigações. Mas ele conseguiu escapar de uma pena de prisão, graças ao fato de ter entregue aos investigadores diversos nomes de clientes brasileiros com dinheiro escondido na Suíça e outros paraísos fiscais.

O operador foi condenado a pagar uma multa de US$ 1,6 milhão e 16 meses de prisão por seu envolvimento nas operações dos principais nomes da Petrobrás, entre eles Paulo Roberto Costa e Pedro Barusco. Mas o brasileiro pode nunca ir para a prisão. Se por cinco anos ele não cometer nenhum crime, ele terá apenas de pagar a multa.

A pena é muito inferior ao valor provado das comissões que ele teria recebido. O brasileiro acumulou comissões no total de US$ 2,4 milhões. Freiburghaus reconheceu nesta quarta-feira, diante do juiz, seu papel no esquema de corrupção.

Para a juíza do tribunal de Bellinzona, a pena sugerida pelo Ministério Público de Berna seria um pouco suave demais. Mas ela acabou validando a proposta, alegando que o brasileiro teria colaborado e que foi sincero e espontâneo. Ela também deixou claro que foi sua ajuda que permitiu que outros casos fossem investigados.

O operador, por exemplo, entregou aos investigadores a lista de 17 brasileiros com contas secretas na Europa. Ele ainda permitiu a descoberta de contas escondidas em Nassau, de outros clientes brasileiros.

De acordo com documentos do Ministério Público da Suíça, ele "manifestou arrependimento sincero" e colaborou com as investigações. Sem ele, diz Berna, informações valiosas sobre a operação de corrupção envolvendo suspeitos na Lava Jato não teriam sido obtidas.

O brasileiro ainda "reconheceu os fatos e participou plenamente do processo penal, colaborando de forma ativa com o MP". Ele ainda admitiu "reconhecer erros" e afirmou estar disposto a manter colaboração com a Justiça para outros processos.

O operador havia deixado o Brasil quando a Lava Jato eclodiu. Com nacionalidade suíça, ele passou a morar em Genebra. Em 2014, ele conversou com o autor dessa coluna e negou qualquer irregularidade. Mas insistiu, apontando para o prédio de um banco, que se ele um dia fosse preso, todos naquele edifício deveriam também ser.

Como a Suíça não extradita seus nacionais, as diferentes tentativas da Justiça brasileira de levar o caso adiante não prosperaram. Um acordo foi fechado e o então juiz Sérgio Moro transferiu o caso para o Ministério Público da Suíça.

Meses depois, Freiburghaus chegou a um acordo com o MP em Berna. Ele cooperou com as investigações e admitiu ter atuado na lavagem de dinheiro. Em troca, recebeu um processo abreviado.

De acordo com o ato de acusação do MP, Freiburghaus administrou 21 contas para garantir o pagamento de propina no esquema da Petrobras/Odebrecht. Alguns dos bancos para os quais esse dinheiro transitou estão na mira dos suíços, que querem entender o papel de suas instituições no maior escândalo de corrupção do Brasil. No total, ele teria operado na lavagem de mais de US$ 60 milhões.

Para os procuradores suíços, Freiburghaus feriu a integridade do centro financeiro suíço. Berna ainda lamenta que o brasileiro não tenha prestado informação sobre as atividades de seus clientes, no momento em que a operação foi iniciada.

Jamil Chade