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Jamil Chade


Os 100 dias que colocaram o mundo à beira de uma depressão

Vendedores utilizam máscaras para circularem por Hanoi, no Vietnã - Getty Images
Vendedores utilizam máscaras para circularem por Hanoi, no Vietnã Imagem: Getty Images
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

09/04/2020 04h00

O ano estava chegando ao final. Praticamente ninguém estava atento ao que acontecia numa cidade industrial na China. Mas, em 31 de dezembro de 2019, o governo de Pequim emitiu o primeiro alerta sobre o descobrimento de uma pneumonia gerada por "causa desconhecida". O caso havia sido identificado em Wuhan.

Cem dias depois, o mundo não é o mesmo. Casais que passaram uma vida inteira juntos foram separados para sempre, sem um último adeus. Parlamentos foram fechados, a censura se aprofundou, milhões já perderam o trabalho, famílias foram isoladas, hábitos foram radicalmente modificados, milhões de crianças foram retiradas de escolas e, em alguns países, uma geração teve suas vidas abreviadas.

Pela primeira vez na história, uma Olimpíada foi adiada. Políticos foram infectados e levados para UTIs. Blindada de tantas doenças que continuam a atingir bilhões de pessoas pelo mundo, a elite descobriu que também é mortal.

Numa mensagem ao povo britânico no último dia 5, a rainha Elisabete evocou temas da Segunda Guerra Mundial ao se despedir. "Nós nos veremos de novo", disse, repetindo uma frase de seus antepassados diante de cada um dos ataques dos alemães sobre Londres.

Em zonas de guerras, grupos armados aceitaram um cessar-fogo temporário para evitar que o inimigo invisível os dizimasse antes das metralhadoras dos grupos rivais.

Mas, acima de tudo, o mundo descobriu que há um enorme vácuo de liderança. Sem coordenação, sociedades descobriram que a pandemia ameaça joga-las em uma depressão política, moral e econômica.

Dados da Oxfam alertam que, se não houver uma aliança internacional por parte dos principais líderes, mais de 500 milhões de pessoas poderão ser jogadas para a pobreza. Na ONU, o temor é de que a crise descarrile os esforços de transformação social e de metas estabelecidas até 2030. Os ganhos obtidos em algumas partes do mundo na última década, por exemplo, poderiam ser neutralizados em apenas alguns meses de pandemia.

O FMI apenas anunciará suas novas projeções na próxima semana. Mas não existem dúvidas de que o tombo será de enormes proporções. Na quarta-feira, o Banco Central da França anunciou que a economia do país tinha sofrido uma contração de 6% no primeiro trimestre, o pior resultado desde a Segunda Guerra Mundial.

Alguns institutos na Alemanha apontam para uma queda de 10% na maior economia do continente. Se confirmada, a taxa é a pior desde o final da Segunda Guerra.

Nos bancos sofisticados de Genebra, analistas retornam a cada final de dia para suas casas atordoados com o que estão vendo nos mercados. "Está tudo se desintegrando", admitiu um analista de uma grande instituição financeira, na condição de anonimato.

No comércio, a OMC fala abertamente na possibilidade de uma queda que chegaria a 32% em 2020, algo inédito e apenas comparável ao período da Grande Depressão, nos anos 30. Só a América do Sul poderia ver uma queda de seu PIB de mais de 11%.

Para o brasileiro que comanda a OMC, Roberto Azevedo, estamos diante da "maior recessão de nossas vidas" e apontou que as comparações com a Grande Depressão eram inevitáveis.

Existem, porém, enormes diferenças entre 1929 e 2020. A partir daquele ano e até 1932, o PIB mundial perdeu cerca de 50% de seu valor. Tampouco é o caso de se comparar à Gripe Espanhola, quando 2,8% da população da terra morreu.

Mas, ainda assim, as projeções são sombrias, principalmente diante da incerteza sobre a duração pandemia. O banco Goldman Sachs fala numa queda do PIB americano no segundo trimestre de 34%. No ano, a queda poderia ser de 6%. Na ONU, a projeção é de que a crise retire US$ 2 trilhões na renda mundial em 2020.

O impacto sobre os trabalhadores é outra incógnita. A Organização Internacional do Trabalho inicialmente estimou que 25 milhões de pessoas poderiam perder seus empregos. Mas depois de a Espanha registrar a demissão de quase 900 mil de pessoas, de Bangladesh alertar para o desaparecimento de um milhão de postos de trabalho e de as autoridades americanas indicaram que 6,6 milhões de novos pedidos de seguro desemprego foram registrados, a própria OIT admite que a crise promete ser ainda mais profunda.

Cerca de 1 bilhão de pessoas que trabalham na informalidade estão em países que declararam quarentenas. O resultado, segundo os especialistas, pode ser um colapso nas sociedades.

Não faltaram aqueles que tentaram se aproveitar da crise. Na Itália, a polícia já tem indícios de que a máfia passou se fortalecer, diante da quebra de milhares de empresas. Na Hungria, o primeiro-ministro, Viktor Orban, fechou o Legislativo e governará por decreto por um tempo indeterminado.

Em diversos outros países, princípios básicos de direitos humanos foram violados sob a justificativa de combater o vírus. A censura contra a imprensa levou governo a expulsar jornalistas estrangeiros. Misteriosamente, algumas das principais ditaduras do mundo insistem que praticamente não têm casos do coronavírus em seus países: Coreia do Norte, Venezuela ou Mianmar.

Depressão política

Mas os cem dias do coronavírus também revelam a depressão política que atravessa o planeta. Sem líderes e sem uma coordenação, grandes potências passaram a se acusar mutuamente, na esperança de convencer suas populações de que não são culpadas pelos corpos que se acumulam e hospitais saturados.

Na China, as autoridades chegaram a ameaçar com prisão um dos médicos que, semanas antes do registro oficial da doença, havia alertado sobre o surgimento da nova doença. Ele foi obrigado a se calar e, em fevereiro, foi um dos mortos pelo vírus.

Nos EUA, Donald Trump foi questionado sobre o vírus durante sua passagem por Davos, no final de janeiro. "Temos tudo sob controle", respondeu.

Refém de interesses políticos e tentando navegar entre grandes potências, a OMS levaria um mês para decretar uma emergência global, em 30 de janeiro. A emergência apenas foi declarada depois que a cúpula da OMS foi até a China negociar de que forma o anúncio seria feito. Mesmo assim, quando isso ocorreu, a entidade deixou claro que era contra fechar fronteiras e suspender o comércio, exigências de Pequim.

Na Europa, governos insistiram em manter todas as atividades em funcionamento por semanas, enquanto grandes aglomerações como jogos de futebol eram realizados. Seria apenas na segunda semana de março que a Europa decretaria a quarentena de seus cidadãos.

Um mês depois, o bloco continua sem chegar a um acordo sobre um plano de resgate. Espanha, Portugal e Itália alertam: se a UE não servir para demonstrar solidariedade neste momento, talvez não sirva para mais nada.

No Brasil, Jair Bolsonaro foi agraciado por analistas internacionais como sendo o principal nome entre os líderes que se recusaram a entender a gravidade da crise. Brigou com governadores, deputados, imprensa e até com seu ministro da Saúde.

Mesmo depois da pandemia ser declarada, o que prevaleceu foi a disputa política em torno do vírus. O G-20, uma espécie de diretório do mundo, se limitou a difundir comunicados de boas intenções, enquanto líderes alternam suas agendas entre agressões.

US$ 5 trilhões foram anunciados por diferentes governos. Mas cada qual agindo sem consultar o vizinho.

China e EUA, que deveriam liderar a resposta global, travam neste momento uma das batalhas mais intensas pelo controle geopolítico do mundo e o desenho de suas esferas de influência.

Questionado se a globalização estava em questão, Azevedo indicou que não acredita que, necessariamente, essa deva ser o resultado da pandemia. Mas alertou que o mundo já vinha de anos de uma crise no sistema multilateral. "Temos de fazer perguntas", alertou.

Para Antonio Guterres, secretário-geral da ONU, o vírus criou uma situação "sem precedentes" em nossa geração e "exigirá uma resposta sem precedentes". Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, usou sua coletiva de imprensa na quarta-feira para fazer um apelo quase desesperado para que líderes políticos se concentrem em lutar contra o vírus. "Pelo amor de Deus. Temos 60 mil mortos", disse.

Por enquanto, a curva do vírus segue sua escalada. Se seu epicentro deixou a China, não existem previsões por parte da OMS sobre quando a pandemia poderia começar a perder força.

100 dias depois, a crise que vai definir uma geração sequer chegou a seu pico. Com uma vacina projetada apenas para 2021, não há um plano coordenado para sair da pandemia e nem uma solidariedade honesta sobre quem deve receber tratamentos e material hospitalar.

Quando a OMS faz uma campanha sobre a importância de lavar as mãos, ela parece surda e cega diante de um mundo onde 900 milhões de pessoas ainda defecam ao ar livre e 785 milhões continuam sem acesso à água para beber. Um mundo em que mil crianças morrem por dia por doenças relacionadas à falta de saneamento básico.

Olhando ao futuro, a pandemia escancara que o mundo não pode voltar ao que era antes.

Se o melhor que a humanidade pode fazer é voltar ao que era, não demorará para que uma próxima crise sanitária - que certamente virá - volte a colocar o mundo de joelhos.

Jamil Chade