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Jamil Chade


Líder internacional critica Bolsonaro e diz que "demagogo" mina seu povo

O presidente da República Jair Bolsonaro fala durante abertura da 74ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York nos Estados Unidos nesta terça-feira, 24. - William Volcov/Brazil Photo Press/Folhapress
O presidente da República Jair Bolsonaro fala durante abertura da 74ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York nos Estados Unidos nesta terça-feira, 24. Imagem: William Volcov/Brazil Photo Press/Folhapress
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

19/06/2020 05h43

Resumo da notícia

  • Gro Harlem Bruntland diz que esperança é de que urnas punam presidente brasileiro por suas decisões na pandemia
  • Norueguesa lidera o Conselho de Preparação Global para crises de saúde, orgão independente criada pela OMS
  • Em setembro, ela vai apresentar um informe sobre como o mundo respondeu à crise
  • Brundtland também critica o governo da China pela gestão da crise e da lentidão no fornecimento de informações

O presidente Jair Bolsonaro é um dos exemplos no mundo de líderes indo no "caminho errado" no que se refere à política internacional, em sua relação com as instituições e em suas decisões diante da pandemia. O resultado dessas escolhas está sendo sentido no próprio destino dos brasileiros, inclusive com morte.

A constatação é da norueguesa Gro Harlem Brundtland, ex-diretora-geral da OMS durante o surto de Sars. Entre 1983 e 1987, ela presidiu a Comissão Brundtland da ONU, dedicada ao estudo do meio ambiente e a sua relação com o progresso. Seu informe final, Nosso Futuro Comum, foi um divisor de águas na questão ambiental e na história das relações internacionais.

Hoje, ela preside o Conselho de Preparação Global para crises de saúde, um órgão independente criado pela OMS depois do surto do Ebola, em 2014. Seu trabalho é o de avaliar a resposta internacional de países e apontar para o desafio da saúde global. Seu próximo informe será apresentado em setembro, com uma avaliação da resposta do mundo à pandemia.

Hoje, ela deixa claro suas críticas contra Bolsonaro e governos populistas. "Lamento dizer, mas é realmente lamentável que ele (Bolsonaro) seja um dos líderes hoje deixando o multilateralismo e levando o Brasil a ter um papel diferente do que era o país", disse. "O Brasil fazia uma diferença positiva, quando olhando para as últimas décadas", afirmou.

"Realmente, esse é um dos exemplos de ir no caminho errado", disse Brundtland, que foi ainda primeira-ministra da Noruega. "O Brasil se distancia dos princípios do multilateralismo, em detrimento de todos nós. E, claro, minando até a importância da Amazônia", afirmou.

Questionada sobre o caso do Brasil e a resposta de líderes populistas nos EUA, México e em outros locais, ela é explícita sobre o impacto que tais governos estão tendo.

Ao rejeitar a cooperação internacional, tais líderes estão prejudicando seus próprios povos.

"Essa é uma crise que exige a cooperação de todos. Se você assume um perfil nacionalista, então você está minam o destino de suas próprias populações ao não dar a eles a oportunidade de se beneficiar da cooperação internacional", disse. "De certa forma, estão fazendo dano em si mesmo e agora veem as consequências de pensar em tais termos. Não responderam da melhor forma, não seguindo as recomendações da OMS e tomando decisões sem base científica", lamentou. "Isso é muito lamentável e as pessoas sofrem", insistiu.

Quanto à responsabilização de Bolsonaro pela crise, a esperança dela é que haja uma resposta nas urnas. "Espero que a opinião pública tome uma posição faça a diferença, com a eleição", afirmou Brundtland.

"Minha esperança é de que, em países como esses, a demagogia não vai mais ser mais ouvida. Agora as pessoas veem as consequências da falta de cooperação, e eles veem isso em seus bairros e casas, com doenças e com mortes", afirmou.

Para ela, é "chocante" ver como é possível que líderes ignorem as recomendações científicas. "É inacreditável", afirmou. A norueguesa ainda lamenta que "tantas pessoas possam ser manipuladas por essas pessoas".

Jamil Chade