PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Jamil Chade


OMS: América Latina não atingiu pico e quarentenas poderão ter de voltar

Os médicos e autoridades Mike Ryan e Tedros Adhanom Ghebreyesus também alertaram contra a redução das restrições de bloqueio muito cedo - Reuters
Os médicos e autoridades Mike Ryan e Tedros Adhanom Ghebreyesus também alertaram contra a redução das restrições de bloqueio muito cedo Imagem: Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

24/06/2020 13h07

Resumo da notícia

  • Agência estima que um total de 10 milhões de pessoas no mundo terão sido contaminadas até a próxima semana no mundo
  • Para especialistas, não existe "mágica" e nem "atalhos". Crise apenas será solucionada com investimentos para identificar casos

América Latina ainda não atingiu o pico da pandemia e as mortes vão continuar nas próximas semanas. O alerta é de Michael Ryan, diretor de operações da OMS, que afirma que as quarentenas mais rígidas poderão ter de voltar na região se não houver um investimento agressivo.

"A epidemia ainda é intensa", afirmou o especialista, que descreveu a situação de "preocupante". "(A pandemia) não está sob controle nas Américas", apontou.

Apenas nos últimos 14 dias, o Brasil atingiu 390 mil novos casos, 20% de todos os novos infectados no mundo. Chile e Peru também vivem situações complicadas.

A agência fez um apelo para que governos ampliem seus investimentos para conter a doença e alerta que não haverá "um atalho". O pedido é para que haja um aumento de testes e isolamento de pessoas infectadas. Caso contrário, confinamento pode ser a única saída.

Segundo ele, houve um aumento de 25% a 50% de casos nos países latino-americanos na última semana. Isso, de acordo com a OMS, significa que a transmissão comunitária continua. Para Ryan, a crise "não atingiu o pico" e os níveis de transmissão não atingiram níveis baixos que poderiam permitir uma retirada de medidas sociais mais drásticas.

"Infelizmente, para muitos países na América Latina, a epidemia não atingiu um pico. Não estão atingindo um nível baixo de transmissão que se possa atingir uma saída sustentável de medidas sociais extremas", afirmou.

Para a OMS, os números devem subir ainda mais e haverá uma "continuação das mortes nas próximas semanas".

Quarentenas poderão voltar

Ryan, de forma enfática, fez um apelo para que os governos adotem estratégias agressivas para frear o vírus e indica que, sem testes e isolamentos, quarentenas poderão ter de voltar.

"O espectro de novas quarentenas não pode ser excluído", disse. "Ninguém quer isso, mas para evitar (a quarentena), será necessário investir de forma agressiva para detectar casos e isolar", disse.

Além de testes e isolamento, ele sugere que governos adotem uma comunicação clara com sociedades. Uma relação de confiança também é necessária com as autoridades.

A OMS ainda indicou que vem recebendo dados da região que apontam que o vírus foi identificado em 30% e 40% dos pacientes com doenças respiratórias. "Isso quer dizer que o vírus está circulando", afirmou Maria van Kerkhove.

Ausência de estado e sem magia

Ryan pede que governos adotem "investimentos agressivos" para identificar os casos. Sem capacidade de testar, ele alerta que governos não podem excluir a possibilidade de decretar novos confinamentos.

Para o especialista, o pico dependente da intervenção do governo. "É difícil prever o pico. Mas ele tem relação direta com o que se faz", disse. "O que se faz afeta o pico e a trajetória para baixo", afirmou.

Ryan pede que governos adotem "investimentos agressivos" para identificar os casos. Sem capacidade de testar, ele alerta que governos não podem excluir a possibilidade de decretar novos confinamentos.

Para o especialista, o pico dependente da intervenção do governo. "É difícil prever o pico. Mas ele tem relação direta com o que se faz", disse. "O que se faz afeta o pico e a trajetória para baixo", afirmou.

"O vírus não age sozinho, o vírus explora um controle fraco", alertou Ryan. "O vírus explora os sistemas de saúde fracos. O vírus explora uma governança ruim. O vírus explora falta de educação, falta de empoderamento das comunidades", disse. "Essa é a realidade da pandemia. Não há respostas mágicas, não existem coisas divinas. Não podemos usar adivinhação para acabar com isso. Temos que usar os recursos que temos à nossa disposição. E sabemos de muitos exemplos de países: olhem para os países que tomaram medidas, olhem para os países que contiveram e controlaram esta doença. E vocês encontrarão as respostas", declarou.

10 milhões de casos

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, alertou ainda que o mundo irá atingir 10 milhões de casos da covid-19 dentro de uma semana, o que revela a necessidade de que governos assumam as responsabilidades para salvar vidas e que não aguardem pelas vacinas.

Segundo ele, 9,1 milhão de casos já foram registrados, com mais de 470 mil mortes. Mas a perspectiva é de que, no atual ritmo, o número deve aumentar em um milhão de novos infectados em apenas uma semana.

No primeiro mês, 10 mil casos foram registrados. No último mês, foram 4 milhões de novos infectados.

Para Tedros, esses números revelam que governos precisam "assumir a responsabilidade urgente" de suprimir a transmissão.

Na avaliação do diretor-geral da OMS, "não existem atalhos" para controlar a doença e que a única estratégia hoje que mostrou resultados é testar, identificar os casos e isolar as pessoas contaminadas.

De acordo com Ryan, a direção da OMS passou a buscar formas de tentar entender quais foram as lições dos últimos seis meses de pandemia para tentar ampliar as respostas. A vacina, ainda que seja uma esperança, não é uma garantia. "Não podemos contar com uma vacina", declarou.

Jamil Chade