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Jamil Chade


Desinformação promovida por Bolsonaro é "agressão à democracia", diz ONU

Bolsonaro concede entrevista na rampa; jornalistas aglomerados - Foto: Marcelo Casalo Jr./Agência Brasil
Bolsonaro concede entrevista na rampa; jornalistas aglomerados Imagem: Foto: Marcelo Casalo Jr./Agência Brasil
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

11/07/2020 04h00

David Kaye, relator da ONU para liberdade de expressão, alerta que os ataques do presidente brasileiro Jair Bolsonaro contra a imprensa e a disseminação de desinformação são realizados por "motivos estratégicos" e que tais atos representam uma "agressão à democracia".

Kaye concluirá em agosto seis anos de mandato na ONU na liderança dos temas de liberdade de expressão. Nesse período, casos como o de Glenn Greenwald e ataques contra jornalistas brasileiros passaram a fazer parte de seu trabalho.

Nos últimos dias, o americano tem acompanhado com preocupação a tramitação do Projeto de Lei das Fake News e chegou a enviar uma carta às autoridades brasileiras sobre os perigos que representa a iniciativa.

Ele conclui seu período na ONU com um alerta sobre a situação brasileira e o comportamento de Jair Bolsonaro.

"Preocupa a forma pela qual o presidente usa plataformas para disseminar desinformação. Isso deve ser uma preocupação para todos, em todas alas políticas no Brasil", disse em entrevista à coluna.

"Não é que o Brasil esteja sozinho nesse problema de governos usando essas plataformas para desinformar o público. Isso é um problema real. Da perspectiva da lei, todos queremos soluções fáceis. Queremos ter alguns limites e entendo isso. Mas frequentemente essas leis não são aplicadas para limitar membros do governo", alertou Kaye, que vem pedindo que a tramitação do PL das Fake News seja suspenso.

Na avaliação de Kaye, os ataques de Bolsonaro contra a imprensa e a disseminação de desinformação estão sendo traduzidos em "tragédia", com um número elevado de mortes no Brasil por conta da covid-19.

"O ataque do presidente aos jornalistas e sua disseminação de desinformação sobre o coronavírus, francamente, os brasileiros se deparam com as consequências disso neste momento, que é trágico", disse.

Kaye admite que não existem muitos instrumentos hoje capazes de frear esse uso de plataformas por parte do governo. "Estou preocupado com o colapso na forma pela qual essas plataformas estão sendo usadas", lamentou.

Democracia

Mas, para o especialista americano, a ameaça de tais comportamentos vai além. "Quando temos líderes como Bolsonaro, Trump, Orban e outros que promovem desinformação e atacam a imprensa, trata-se de motivos estratégicos. Eles tentam minar na mente das pessoas a informação transmitida pela imprensa. E isso é uma agressão contra um dos pilares da democracia", disse.

"Políticos, desde sempre, criticaram histórias sobre eles. É parte da relação entre governos e a imprensa. Mas atacar a imprensa de uma forma geral e como instituição é uma agressão às fundações democráticas", alertou.

"O Brasil tem uma história rica e complicada com a democracia. Espero que os ataques de curto prazo não tenham um impacto de longa duração. Mas é difícil dizer", completou o relator.

Jamil Chade