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Jamil Chade


Jamil Chade

China perde mais que Brasil com relação ruim entre países, diz professor

O professor Dingding Chen, especialista em relações internacionais - Imagem cedida ao UOL
O professor Dingding Chen, especialista em relações internacionais Imagem: Imagem cedida ao UOL
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

10/08/2020 04h03

Numa relação desgastada entre Brasil e China, Pequim é quem sairia mais prejudicada. A constatação é de Dingding Chen, professor de relações internacionais da Jinan University, em Guangzhou, e diretor do Intellisia Institute, um dos maiores think tanks chineses dedicado à política externa do país.

Em entrevista exclusiva à coluna, o acadêmico deixou claro que o ambiente de tensão política que existe entre a China e alguns de seus parceiros comerciais é uma nova realidade que o país asiático terá de enfrentar.

Desde o início do governo de Jair Bolsonaro, atritos se proliferaram entre a diplomacia brasileira e a chinesa, enquanto exportadores agrícolas e mesmo militares agiram nos bastidores para tentar encontrar uma convivência adequada no eixo Brasília-Pequim.

Chen admite que, no curto prazo, o Brasil poderia ser mais afetado por um esfriamento na relação com a China, principalmente por sua dependência comercial. Mas deixou claro que, com a meta de ser uma potência global e influente em todos os cantos do mundo, é Pequim quem perderia no longo prazo com um distanciamento em relação à América do Sul.

Para o especialista, que já passou pelas universidades de Chicago, Princeton e Harvard, a China foi o país que mais se beneficiou da globalização nos últimos 20 anos. Hoje, terá de ajustar suas políticas domésticas e sua diplomacia para permitir um reequilibro da economia mundial e desfazer a resistência que existe contra o país em diferentes segmentos no Ocidente.

Eis os principais trechos da entrevista:

UOL - Num cenário de tensão entre potências, como a China se insere no debate internacional?

Dingding Chen - Estamos falando de um novo tipo de relação, de competição. O cenário mundial mudou de forma radical desde o fim da Guerra Fria. No fundo, desde o final da Segunda Guerra Mundial, não tivemos um confronto direto entre as maiores potências militares do planeta. Tivemos momentos tensos. Mas não houve uma guerra convencional. Hoje, estamos entrando numa nova era e não sabemos o que é ainda.

Temos a China, tentando ter uma voz cada vez maior no cenário internacional e mais poder nas mesas de negociações. Mas não sabemos se é uma antiga civilização tentando recuperar uma glória do passado. Ou se é outro regime ou mesmo uma combinação disso tudo. O momento é único. As pessoas têm tentado olhar para o passado para encontrar algo similar ao que está ocorrendo. Mas não encontram. A China é um novo ator no cenário internacional nos últimos 200 anos.

No passado, a conquista de um território era central para ser uma potência. Depois, tivemos um momento em que possuir armas nucleares era a chave. Hoje, isso passa por dominar a tecnologia?

Essa é a maior questão que a nossa geração terá de lidar. Você está certo em dizer que territórios foram fundamentais no passado e que hoje não têm a mesma importância. Claro que é fundamental. Mas podemos ter muita influência com uma empresa de tecnologia e mentes brilhantes. A tecnologia contribui cada vez mais para o PIB e isso é o futuro. O país que tiver acesso a isso terá influência.

Claro que isso já era uma realidade no passado. Mas é um processo que se acelera. Um país pode ocupar um território. Mas adquirir tecnologia pode trazer um benefício ainda maior. No futuro, países competirão para dominar a tecnologia, e não um setor convencional como território.

Os atuais momentos de tensão entre americanos e chineses fazem parte dessa busca por tecnologia?

Por conta da globalização, nenhum país tem como controlar sozinho a tecnologia. Mais cedo ou mais tarde, essa tecnologia vai chegar a outro canto do mundo. Países têm operado pela noção de soberania. Naturalmente, tentam controlar as coisas. Mas essa é a direção errada e por isso temos visto essa competição e confrontação. O melhor seria colaborar com outros países, sempre levando em conta o interesse nacional.

E qual a posição da China nesse contexto?

Existem duas dimensões. Em primeiro lugar, a China quer ainda fazer parte do processo de globalização. Portanto, a China tem enfatizado nos últimos anos, de forma repetida, que quer se manter aberta ao mundo, incluindo ao comércio e investimentos. Não há um sentimento de que vamos fechar as portas aos americanos. Mas, em segundo lugar, dada a atual tendência de nacionalismo ou desintegração, vemos que todos os países, inclusive a China, estão buscando ter mais autonomia. Não ter de depender 100% de cadeias internacionais de produção. A covid-19 não é um fator geopolítico. Mas está afetando as cadeias de fornecimento.

Os dois fatores não estão em confronto. Um país pode fazer parte da globalização, mas com o certo grau de autossuficiência. Essa parece a posição de longo prazo da China.

No Ocidente, há um questionamento em relação às instituições internacionais. Do outro lado, temos a China deixando claro que quer influenciar o sistema multilateral. Qual é o papel do multilateralismo na estratégia da China?

De uma forma geral, a China favorece o multilateralismo. Veja o que ocorre na OMS (Organização Mundial da Saúde). Enquanto o governo americano indica que se retira, os chineses dão seu apoio, até mesmo de forma mais ativa. A China se beneficiou muito da globalização, muito mais que os demais países nos últimos 40 anos. Portanto, não há motivo para se virar contra a globalização. Foi nossa fonte de crescimento. Seria estúpido se virar contra o multilateralismo.

Além disso, o multilateralismo não significa um internacionalismo orientado pelos EUA. Existem outras organizações como os Brics (grupo de países que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e outras entidades que serão mais importantes no futuro. Ou seja, você pode ter instituições multilaterais sem o envolvimento dos EUA. A China, assim, se aproxima do Sudeste Asiático, da Europa do Leste, da África. E a China ainda espera que alguns setores domésticos nos EUA mantenham boas relações.

Mas se a China ganhou com a globalização, uma parcela importante da classe média no Ocidente tem a percepção de que saiu perdendo. Discursos políticos usaram esse ressentimento para alimentar a extrema-direita. Como o sistema pode sobreviver num cenário em que políticos culpam a China pela destruição de empregos?

No fundo, vai depender de como os benefícios da globalização serão distribuídos de forma mais justa. A globalização terá de ser mais inclusiva, com mais gente se beneficiando. Talvez não tenha sido o caso nos últimos 20 ou 30 anos. Certamente, a China está numa posição de considerar essa situação e fazer contribuições para reequilibrar a política econômica global.

Isso poderia ocorrer por uma maior abertura a investimentos, consumindo mais produtos estrangeiros, mantendo a moeda mais estável. Esse é o momento de reequilibrar a política econômica global numa forma que não vimos nos últimos 70 anos. Mas também para incluir africanos, latino-americanos e outros. Precisamos encarar o problema.

Existe o risco de que a tensão atual saia de controle e se transforme em um confronto armado?

Precisamos levar à sério a possibilidade de um conflito localizado sair do controle. Historicamente, já vimos isso ocorrer.

Hoje, porém, a diferença é que nenhuma conquista militar pode trazer benefícios econômicos. Essa é uma grande diferença em relação à era passada. O que pode gerar mais benefícios: um novo território ou uma empresa de ponta em certa tecnologia? A notícia positiva é que há uma conscientização cada vez maior que disputas por terras ou marítimas não tem soluções rápidas.

O sr. acredita que a tensão entre China e EUA vai aumentar com a eleição americana em novembro? Ou a China vai esperar a definição política para tomar suas decisões?

Todos estão esperando pelas eleições nos EUA em novembro para tomar decisões importantes. O momento é de extrema incerteza. Mesmo se Trump vencer, ele terá de ajustar suas estratégias. 2020 é um ano atípico ainda por conta da pandemia, que nos impôs uma pausa a todos. O próprio poder nos EUA enfrentará muitas questões nos próximos quatro ou oito anos.

Pandemia vai acelerar a transferência de poder global para a Ásia?

É ainda prematuro para dizer isso. Até que as vacinas apareçam, não saberemos exatamente qual é o comportamento das sociedades. Todos estamos sofrendo com isso. Não há uma garantia de que a situação beneficie a Ásia. Talvez seja uma oportunidade para mudanças profundas. Talvez o distanciamento social será o novo normal por dez anos. Mas também seja a possibilidade de países se reinventarem.

No Brasil, temos um governo que abertamente fala de sua aliança com os EUA, com membros da administração que criticam a China. Mas a economia nacional depende do mercado chinês em termos de exportação. Qual é, portanto, a situação hoje da relação entre os dois países?

Brasil é talvez um exemplo de um ambiente mais amplo que a China está enfrentando hoje. Se olharmos, podemos ver que a China está tendo boas relações econômicas com muitos países. Mas, ao mesmo tempo, as relações políticas estão tensas. Isso é um novo ambiente. Certamente, a China precisa reconsiderar alguns de suas políticas domésticas e política externa. Isso pode fazer parte da equação.

Essas situações podem ir e vir, e dependem muito do ambiente doméstico. No caso do Brasil, há um novo ambiente econômico, com um novo governo. Mas precisamos olhar de uma forma mais ampla sobre qual é a percepção da China na sociedade brasileira. Olhar mais profundamente na sociedade por qual motivo existem essas percepções ou mal-entendidos. No fundo, não entendemos muito bem uns aos outros. Na China, talvez se possa contar nos dedos de uma mão o número de excelentes especialistas sobre o Brasil.

Quem perde mais com uma relação ruim entre China e Brasil?

Para a China, perdemos muito. Comercialmente, é algo relativamente pequeno diante do significado da relação de longo prazo. Portanto, a China perderia mais. Para o Brasil, é algo mais econômico. Mas, para a China, é algo mais amplo, com o ambiente geral.

No longo prazo, essa relação é muito importante para a China. Talvez tão importante quanto manter uma boa relação com os EUA. No fundo, não interessa se estamos falando de uma relação com uma superpotência ou com uma potência intermediária. Estamos falando da humanidade e da comunidade global crescendo juntos. Essa é uma questão central para a China, que não quer apenas ser uma potência asiática. Mas uma potência mundial. Mas, para isso, precisa entender o mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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