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Jamil Chade

China oferece R$ 5 bi para financiar compra de vacina; Brasil ignora evento

Vacina testada em São Paulo e desenvolvida em parceria com a China - Reprodução
Vacina testada em São Paulo e desenvolvida em parceria com a China Imagem: Reprodução
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

14/08/2020 04h04Atualizada em 14/08/2020 12h38

O governo brasileiro faltou a uma reunião entre chanceleres latino-americanos e a China, quando Pequim anunciou um financiamento de US$ 1 bilhão aos governos da região para a compra de vacinas chinesas, mais de R$ 5 bilhões. As informações foram dadas pelo governo do México que, ao lado dos chineses, eram os anfitriões do encontro a qual o Brasil foi convidado.

A declaração final foi assinada pelas maiores economias latino-americanas, com governos de direita ou de esquerda. Além dos anfitriões mexicanos, fizeram parte da reunião no dia 22 de julho os chanceleres da Argentina, Colômbia, Peru, Chile e Uruguai.

Também estiveram no encontro Barbados, Costa Rica, Cuba, República Dominicana, Equador, Panamá e Trinidad e Tobago.

O governo do México informou à coluna que não saberia dizer o motivo pelo qual o Ministério das Relações Exteriores optou pela ausência, já que não houve uma explicação formal por parte de Brasília.

Procurado em duas ocasiões, o Itamaraty se manteve em silêncio sobre o assunto. O Ministério da Saúde também não explicou a ausência do governo e disse que a consulta deveria ser realizada à chancelaria.

O presidente Jair Bolsonaro tem usado eventos e declarações para ironizar a vacina chinesa e fustigar o país asiático. Já o chanceler Ernesto Araújo chegou a falar sobre o risco de um "vírus comunista".

No começo do ano, o Brasil formalizou sua decisão de suspender sua participação na Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) que, em 2020, tem a presidência do México.

Num comunicado, o governo mexicano indicou que a reunião do final de julho teve como objetivo "consolidar a cooperação internacional contra a covid-19 e enfrentar de maneira conjunta os desafios derivados da pandemia". O encontro foi liderado pelo secretário de Relações Exteriores do México, Marcelo Ebrard, e pelo chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi.

Durante o encontro, Ebrard agradeceu o apoio da China ao projeto da América Latina na ONU (Organização das Nações Unidas) de aprovar uma resolução que garanta que haverá um compromisso dos governos em garantir acesso a remédios, vacinas e tratamentos.

"A resolução foi uma importante expressão de solidariedade e compromisso político que agora devemos transformar em ação", disse. "Nos próximos meses, a prioridade comum é o desenvolvimento de tratamentos e vacinas e a criação de mecanismos eficazes para sua distribuição universal", afirmou Ebrard.

Wang agradeceu à América Latina por sua cooperação durante "o período mais difícil da pandemia". Ele apresentou projetos de cooperação da China com países da América Latina focados no combate à pandemia.

Em declaração conjunta após a reunião, os governos participantes reconheceram "a liderança da OMS [Organização Mundial da Saúde] na coordenação da cooperação global contra a covid-19". O texto também insistia no fortalecimento do multilateralismo, que foi criticado pela administração de Ernesto Araújo no Itamaraty.

O texto também coloca a China numa condição central. "Desde o início da covid-19, a China e os países da América Latina têm trabalhado juntos, guiados por uma profunda amizade e espírito de cooperação em tempos difíceis", afirmaram.

Dois parágrafos do texto aprovado por unanimidade dificilmente teriam recebido o apoio do Itamaraty.

"O lado chinês expressa seu apreço aos países da América Latina e do Caribe que defendem ativamente a China e elogia sua atitude aberta em relação à cooperação global contra a covid-19", indicou o texto.

Num outro trecho, a América Latina "reconhece que a China agiu decisivamente para conter a covid-19 e fez progressos positivos, e aprecia a cooperação e o forte apoio da China".

A declaração conjunta ainda é concluída com um compromisso dos governos de "aprofundar nossa cooperação e parceria abrangente baseada em princípios de igualdade e respeito mútuo, bem como nosso forte apoio a uma abordagem multilateral".