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Jamil Chade

Na cúpula dos Brics, Brasil assume agenda de Trump contra China

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

17/11/2020 09h24Atualizada em 17/11/2020 19h06

Resumo da notícia

  • Bolsonaro pede reformas em entidades consideradas aliadas dos interesses chineses, como OMS e OMC
  • Presidente ainda usou termos adotados pela Casa Branca para criticar o Partido Comunista Chinês
  • Já Xi Jinping pediu adesão aos compromissos do Acordo de Paris e criticou isolacionismo
  • Evento revelou a distância que existe entre posturas políticas de Bolsonaro e de Xi

Xi Jinping, presidente da China, e o presidente Jair Bolsonaro usaram a cúpula dos Brics nesta terça-feira para trocar críticas veladas, inseridas em discursos diplomáticos.

Ao tomar a palavra no evento virtual organizado pela Rússia, o líder chinês defendeu ações ambientais e o Acordo de Paris, pediu a proteção ao multilateralismo e à ONU (Organização das Nações Unidas), citou indiretamente o acordo com o estado de São Paulo sobre vacinas e defendeu que, na crise da covid-19, a saúde seja prioridade. Xi não citou em nenhum momento o Brasil em seu discurso. Mas sua fala deixou claro a distância que existe entre Brasília e Pequim.

Já Bolsonaro, de seu lado, não fez qualquer referência ao multilateralismo ou à ONU e assumiu uma agenda defendida por Donald Trump contra a China.

O brasileiro deixou clara sua posição ao tocar em temas delicados para a China e alertar sobre os riscos de uma nova geopolítica internacional ganhar corpo num período pós-pandemia. No Itamaraty, o temor é de que a nova era seja marcada por uma forte influência de Pequim.

Não por acaso, Bolsonaro usou o discurso para indicar que o Brasil vai caminhar num sentido de evitar que tal influência se transforme em uma ameaça.

"A crise sanitária impôs grandes desafios à estabilidade internacional", disse. "O Brasil lutará para que prevaleça em um mundo pós pandemia um sistema internacional pautado pela liberdade, pela transparência e segurança. Para que isso se concretize, é fundamental defender a democracia e defender as prerrogativas soberanas dos países", disse.

Os termos são os mesmos que o governo de Donald Trump se utiliza para criticar o Partido Comunista Chinês e sua suposta ameaça à ordem internacional.

Bolsonaro critica OMS e OMC

Ao citar a transparência, por exemplo, Bolsonaro foi ainda interpretado como tendo enviado uma mensagem crítica ao comportamento de Pequim diante da pandemia da covid-19. O presidente brasileiro ainda atacou "o monopólio da OMS [Organização Mundial da Saúde]" e pediu uma reforma da instituição, em mais um gesto recebido como um sinal de críticas à influência de Pequim na organização.

Bolsonaro ainda pediu uma reforma da OMC (Organização Mundial do Comércio), com um enfoque na questão dos subsídios. Se essa foi uma pauta constante do Brasil ao longo dos anos, ela ganhou uma nova dimensão diante da presença cada vez maior da China no mercado internacional e acusada por Washington de se aproveitar de brechas nas regras internacionais para subsidiar alguns de seus principais setores econômicos.

Em seu discurso, Bolsonaro também fez questão de destacar a necessidade de um respeito à "soberania nacional" e repetiu o mantra do Itamaraty de que não foram as entidades internacionais que deram uma solução à crise. Mas sim as nações.

Xi ataca políticas isolacionistas

Do lado chinês, o discurso mostrou a distância entre Xi e Bolsonaro. Um dos pontos destacados foi o ataque a políticas "isolacionistas", uma postura adotada pelo governo de Donald Trump e repetida pelo Itamaraty. Para Xi, atos de "bullying" estão aumentando no cenário internacional. O chinês insiste o risco de abandonar o multilateralismo.

"A história nos mostra que o multilateralismo pode evitar guerras", disse Xi. Já o isolacionismo "vai aumentar a tensão e possibilidade de conflitos". O presidente chinês ainda pediu que os demais países dos Brics saiam na defesa do direito internacional e da ONU, além de criar uma oposição contra sanções unilaterais.

Ao longo dos últimos meses, o governo brasileiro tem rejeitado fazer uma defesa explícita do multilateralismo e da ONU, insistindo que o princípio da soberania deve ser a prioridade.

Acordo de Paris

Outro ponto destacado por Xi foi a questão das mudanças climáticas, um tema delicado para o governo brasileiro no cenário internacional. Segundo ele, o aquecimento global "não para" diante da pandemia e defendeu que países estabeleçam uma "harmonia" entre a sociedade e a natureza.

O chinês ainda pediu que governos se comprometam a implementar o Acordo de Paris, denunciado por Trump e questionado internamente no Brasil.

Vacina em parceria com São Paulo

Xi ainda fez questão de tratar da crise da covid-19 e, uma vez mais, adotou um discurso distante da narrativa de Bolsonaro. Para o chinês, a saúde precisa ser colocada como "prioridade".

O presidente da superpotência ainda fez referência ao acordo de vacinas que mantém com o estado de São Paulo, ainda que não tenha usado o nome da entidade federativa e se referiu apenas como um entendimento com o Brasil. O chinês ainda deixou claro que está disposto a enviar vacinas para os demais países dos Brics, se necessário.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL