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Jamil Chade

Sem data para vacina da Índia, Brasil pode ter de esperar na fila

14.nov.2019 - O presidente Jair Bolsonaro participa de evento (Diálogo com o Conselho Empresarial do BRICS) com os presidentes dos países do BRICS, Cyril Ramaphosa (Africa do Sul), Narendra Modi (Primeiro Ministro da Índia), Vladmir Putin (Rússia) e Xi Jinping (China) durante reunião de cúpula do grupo, no Palácio do Itamaraty. - Pedro Ladeira/Folhapress
14.nov.2019 - O presidente Jair Bolsonaro participa de evento (Diálogo com o Conselho Empresarial do BRICS) com os presidentes dos países do BRICS, Cyril Ramaphosa (Africa do Sul), Narendra Modi (Primeiro Ministro da Índia), Vladmir Putin (Rússia) e Xi Jinping (China) durante reunião de cúpula do grupo, no Palácio do Itamaraty. Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

18/01/2021 06h39

Resumo da notícia

  • Diplomatas confirmam que, neste momento, não existe uma data confirmada ainda para o fornecimento das vacinas
  • Jornal Times of India revela que Nova Delhi poderá fornecer vacinas primeiro para vizinhos, como Butão e Sri Lanka, antes de liberar para o Brasil

Fontes diplomáticas em Brasília confirmam à coluna que, por enquanto, não existe uma data confirmada para que a Índia possa fornecer os imunizantes ao Brasil. Além do governo de Jair Bolsonaro, outros países também pressionam por acesso aos produtos - entre eles Bangladesh e Nepal - e uma parcela do governo de Nova Delhi defende que vizinhos asiáticos sejam atendidos antes que qualquer outro país do mundo.

O Brasil fechou um acordo milionário com a AstraZeneca e a Universidade de Oxford para a aquisição da vacina. Mas as doses são produzidas pelo laboratório indiano Serum.

O Itamaraty chegou a anunciar na semana passada que um avião iria até a Índia buscar o material, depois que o presidente Bolsonaro enviou uma carta ao primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, solicitando a cooperação.

Mas o governo indiano enterrou o projeto, alertando que seria "cedo demais" para enviar as vacinas. No instituto Serum, uma das previsões é de que o abastecimento ao Brasil poderia ocorrer apenas no início de fevereiro.

De forte cunho nacionalista, Modi vem sendo pressionado a garantir uma vacinação nacional em seu país e a ideia de distribuir as doses para outros países poderia afetar sua principal bandeira política. No sábado, a Índia iniciou o que está sendo chamado como a maior campanha de vacinação do mundo.

Bolsonaro minimizou o atraso e indicou que o voo partiria ainda nesta semana. Mas a versão dentro do Itamaraty é diferente. Diplomatas admitiram que, nesta segunda-feira, não existe ainda um plano claro de quando os insumos poderiam ser enviados e nem de quando o avião seguiria para a Índia.

Primeiro para os vizinhos, depois para o Brasil

Em Nova Delhi, o jornal Times of India revelou ainda na manhã desta segunda-feira que Modi quer dar prioridade ao abastecimento de vacinas para os países vizinhos na região, incluindo Butão, Bangladesh, Nepal, Mianmar, Sri Lanka, Afeganistão e outros.

De acordo com o jornal, fontes do governo indicaram que só depois de um gesto a esses países o governo indiano autorizaria a exportação das doses para outros países pelo mundo, entre eles o Brasil. Também estão na fila governos da África do Sul, Marrocos e Arábia Saudita.

Na semana passada, a Serum indicou que o abastecimento ao Brasil ocorreria em duas semanas. Mas, mesmo dentro da Índia, há uma forte pressão para que os vizinhos sejam atendidos primeiro.

A coluna apurou que existiriam dois motivos para isso. O primeiro é sanitário, já que o temor dos indianos é de que terão de ajudar os sistemas de saúde dos vizinhos se quiserem proteger sua própria população.

Mas há também um aspecto geopolítico. Uma concessão das vacinas a preços simbólicos para esses vizinhos reforçaria a influência indiana na região. Índia e China disputam o papel de hegemonias regionais.

Na semana passada, o Itamaraty já declarava que o fornecimento estava garantido. "O sucesso da aquisição das doses junto à matriz britânica e à produtora indiana da vacina demonstra o excelente momento das relações Brasil-Reino Unido e Brasil-Índia e a solidez dos relacionamentos estratégicos que mantemos com esses dois países", afirmou.

Sem as doses indianas, o governo federal teve de assistir no domingo o início da vacinação em São Paulo, a partir de produtos desenvolvidos em parceria com a China. Uma derrota diplomática e uma derrota eleitoral para o governo Bolsonaro.