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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Não há evidência de que mercado de Wuhan é origem do coronavírus, diz OMS

Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

09/02/2021 07h43

Resumo da notícia

  • Primeira conclusão de missão internacional é de que não existem evidências de que surto começou em mercado de Wuhan
  • Animal que poderia ter servido de intermediário ainda não identificado e nem a forma pela qual vírus chegou a Wuhan
  • Missão diz que origem do vírus em laboratório é "extremamente improvável" e hipótese não continuará a ser investigada
  • Sem dar detalhes, membros chineses da missão sugerem que circulação do vírus pode ter ocorrido em outras regiões.

Numa entrevista coletiva cuidadosamente orquestrada hoje, a missão conjunta da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do governo chinês sobre a origem do vírus da covid-19 constatou que não existem evidências de que o mercado de animais de Wuhan tenha sido a origem do surto do novo coronavírus.

Tampouco existem sinais de circulação do vírus na cidade chinesa antes de dezembro de 2019, e os pesquisadores insistem que não existem motivos para continuar a investigar um suposto acidente em um laboratório chinês. Tal teoria, segundo eles, seria "extremamente improvável".

Mas os representantes chineses sugerem que o vírus pode ter circulado em outras regiões do mundo e, diante da falta de uma identificação, teria passado sem ser notado por semanas.

A constatação fez parte dos primeiros resultados da investigação conduzida sobre a origem do vírus. Um ano depois da eclosão da pandemia e sob forte crítica internacional, Pequim autorizou a realização da missão internacional.

Mercado de Wuhan pode não ser primeiro local de surto

Mas coube ao representante chinês, Liang Wannian, apresentar os primeiros resultados do trabalho da missão. Segundo ele, o mercado de Wuhan pode não ter sido a origem do surto do vírus e indicou que os primeiros casos identificados —de 8 de dezembro de 2019— não tinham relação com o local.

Liang, porém, admite que não há ainda como saber de que forma o vírus foi introduzido ao mercado de Wuhan. Uma das teses é de que a origem poderia ser zoonótica. Mas o anfitrião ainda não por ser identificado. Morcegos poderiam ser uma aposta, ainda que a pesquisa deixe claro que existem possibilidades de que outros animais tenham servido como intermediários.

Para o chinês, não existem sinais de surtos antes de dezembro de 2019 na China e nem locais de disseminação no país fora de Wuhan.

Mas Liang alertou que "a circulação do vírus estava presente antes da emergência do primeiro caso". Segundo ele, isso poderia ter ocorrido em outras partes do mundo. O chinês não detalhou onde essa circulação teria ocorrido e nem sobre qual base tal tese teria sido desenvolvida.

Foi apenas depois da apresentação do chinês à imprensa de todo o mundo que um membro internacional da missão, Peter Embarek, tomou a palavra. Ele confirmou que não encontrou sinais de surtos antes de dezembro de 2019 em Wuhan. Mas deixou claro que a circulação do vírus ia além do mercado de Wuhan.

Embarek foi mais cauteloso sobre a existência do vírus em outras partes do mundo. Ele apenas indicou que também admite que novos estudos serão necessários para tentar identificar se houve algum tipo de circulação em outras partes do mundo.

Acidente em laboratório descartado

O chefe da missão internacional afirmou que a pesquisa continua apontando para a "origem natural" do vírus. Mas como Wuhan não está em um local com uma população importante de morcegos, a missão terá de investigar de que forma o vírus chegou até a cidade.

Uma das opções será a de avaliar a cadeia de abastecimento de alimentos até o mercado de Wuhan, principalmente no que se refere aos produtos congelados. Outra opção é a possibilidade de que o vírus tenha chegado ao mercado por meio de um comerciante contaminado ou simplesmente de um consumidor ou visitante.

O chefe da missão internacional admitiu que, entre as hipóteses que foram avaliadas sobre a origem do vírus, estava a possibilidade de um acidente num laboratório chinês. O argumento foi amplamente disseminado pelo governo de Donald Trump, num esforço para denunciar Pequim.

Mas, segundo Embarek, a hipótese "mais provável" é a de uma introdução do vírus pela cadeia alimentar ou contato entre animais. Segundo ele, a tese de um acidente em laboratórios é "extremamente improvável" e novos estudos sobre tal cenário serão abandonados.

De acordo com ele, "acidentes ocorrem". "Não é impossível. Isso já ocorreu em outros países", disse, justificando o motivo pelo qual a tese foi considerada inicialmente. Mas a avaliação do grupo é de que jamais houve uma pesquisa sobre um vírus com aquelas características e nem publicações científicas.

Tradutor: Vírus pode ter circulado em outras regiões; fuga de laboratório improvável