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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

OMS fala em "inferno furioso" e apela por medidas sociais no Brasil

Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra -
Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

09/04/2021 10h16

Resumo da notícia

  • Entidade diz que não existem vacinas suficientes e que apenas medidas de isolamento, testes e rastreamento podem reduzir crise
  • OMS alerta que não há como aumentar envio de doses ao Brasil e apostará em aumento da produção local de vacinas no país

A OMS (Organização Mundial da Saúde) deixa claro que "simplesmente não existem vacinas suficientes" no mercado global e que países, entre eles o Brasil, terão de recorrer a medidas sociais para reduzir mortes e contaminações por conta da covid-19.

Ao responder a uma questão sobre a situação no país, a entidade chegou a dizer que o surto vive um "inferno furioso" e que apenas amplas medidas de isolamento, testes e rastreabilidade vão "desacelerar" a crise.

Em coletiva de imprensa nesta sexta-feira, a agência voltou a alertar sobre a crise sanitária nacional. Mas deixou claro que, no curto e médio prazo, não há como depender apenas de vacinas para reduzir o número de mortes. Há uma semana, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, se reuniu com a cúpula da OMS para pedir por mais vacinas. Mas foi informado de que isso não era possível.

"É muito preocupante o que ocorre no Brasil", disse Bruce Aylward, conselheiro de vacinas da OMS e que explicou que o próprio diretor-geral da agência, Tedros Ghebreyesus, está em busca de soluções para o Brasil.

"Mas em termos de vacinas, simplesmente não existem vacinas para reduzir riscos para trabalhadores e mais idoso", disse. "Enquanto isso, outras medidas precisam ser tomadas", apontou.

Para a cúpula da OMS, o momento é garantir a ação de líderes políticos e da população e o recado vem em uma semana em que o governo de Jair Bolsonaro insistiu que lockdowns não serão adotados.

"O que temos de fazer hoje é usar as medidas cruciais que sabemos que funcionam, como identificar casos, isolar e rastrear contatos. Isso é o que funciona", insistiu. De acordo com ele, pequenos volumes de doses de vacinas terão efeitos limitados para reduzir o risco a grupos da população.

"Mas o que temos de lidar aqui é com um inferno furioso de um surto", alertou. "Isso exige uma ação no nível da população para rapidamente testar, isolar e rastrear", repetiu. "Precisamos lidar dessa forma para desacelerar essa coisa", afirmou Aylward.

De acordo com ele, pedir mais vacinas ao Brasil neste momento é um "ponto mudo". "Mas o crítico é adotar medidas que possam ser usadas de forma ampla para desacelerar a crise", defendeu.

Maria van Kerkhove, diretora técnica da OMS, também insiste sobre a necessidade de que governos não dependam apenas de imunizantes. "A vacina é poderosa. Mas ela não vai parar sozinha a pandemia. Todos terão de fazer sua parte", disse.

"A trajetória da pandemia vai na direção errada", alertou. "São seis semanas de aumento no número de casos e três semanas de aumento em mortos", afirmou.

Parceria para gerar maior produção no Brasil

Sem vacinas no mercado global, uma das apostas de Tedros é a de aumentar a produção local de vacinas no Brasil. "Estamos fazendo uma parceira para ajudar a aumentar a produção local", afirmou. "O Brasil tem uma certa capacidade e é uma questão de apoiar isso", declarou.

Questionado pela coluna sobre a possibilidade de a OMS passar a lidar com governadores estaduais e prefeitos no Brasil, diante de uma resposta insuficiente do governo federal, o diretor-geral Tedros Ghebreyesus acenou que apostará ainda no contato com Brasília.

"Estamos falando com o governo federal", disse. Há uma semana, ele manteve a primeira reunião com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e dentro da agência a esperança é de que haja uma brecha para finalmente trabalhar com o governo.

Mike Ryan, diretor de operações da OMS, explicou que existem equipes técnicas trabalhando com governos estaduais e prefeituras. Mas apontou que "o engajamento político continua sendo com governo federal, que é o caminho apropriado".

Países ricos receberam 87% das vacinas; nos mais pobres, só 0,2%

Tedros Ghebreyesus ainda denuncia a desigualdade na distribuição das vacinas contra a covid-19 e alerta que gestos políticos e nacionalismos podem adiar o fim da pandemia.

De acordo com os últimos dados da agência, mais de 700 milhões de doses já foram administradas pelo mundo. Mas 87% delas foram para os países ricos e as grandes economias emergentes, entre elas o Brasil. Já os países mais pobres do mundo receberam apenas 0,2% das vacinas.

Os números, segundo Tedros, também revelam que em média um a cada quatro habitantes dos países mais ricos já foi vacinado. Nos países mais pobres, porém, apenas uma a cada 500 pessoas foi imunizada.