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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Lockdowns não freiam crise climática e 2020 é 3º ano mais quente, diz ONU

Amazônia é o bioma mais afetado por incêndios florestais neste ano, diz Inpe - Reuters
Amazônia é o bioma mais afetado por incêndios florestais neste ano, diz Inpe Imagem: Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

19/04/2021 12h30

Resumo da notícia

  • Dados são apresentados às vésperas de cúpula convocada por Biden para tratar de clima
  • De acordo com levantamento, pandemia e mudanças climáticas levaram crise social para milhões de pessoas
  • ONU pressiona governos a adotar medidas ambiciosas para reduzir emissões de CO2


Às vésperas da cúpula do clima, organizada pelo presidente Joe Biden, a ONU publica novos dados em que revela que nem mesmo as medidas de confinamento, redução drásticas de viagens aéreas, queda inédita da atividade econômica ou ordens para ficar em casa conseguiram frear a crise climática.

O ano de 2020 se consolida, assim, como um dos três mais quentes e a pandemia aprofundou os impactos sociais de eventos climáticos extremos, como secas, colocando em risco milhões de pessoas.

A publicação dos novos dados marca o início de uma semana considerada como crítica para o debate sobre mudanças climáticas e o compromisso de governos em relação ao corte de emissões de CO2.

"Esses dados mostram que não temos tempo a perder", disse o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres. "O clima está mudando, e os impactos já são muito caros para as pessoas e para o planeta. Este é o ano de ação", pediu.

"Os países precisam se comprometer com as emissões líquidas zero até 2050. Eles precisam apresentar, bem antes da COP26 em Glasgow, planos climáticos nacionais ambiciosos que coletivamente reduzirão as emissões globais em 45% em comparação com os níveis de 2010 até 2030. E eles precisam agir agora para proteger as pessoas contra os efeitos desastrosos da mudança climática", disse o secretário-geral.

Na avaliação da ONU, eventos climáticos extremos e a covid-19 foram "golpes duros" para milhões de pessoas em 2020. "Entretanto, a desaceleração econômica relacionada à pandemia não conseguiu frear os fatores da mudança climática e acelerar os impactos", disse a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

2020: um dos três anos mais quentes

De acordo com a agência da ONU, 2020 foi um dos três anos mais quentes já registrados, mesmo diante do um evento La Niña que ajudou a esfriar. A temperatura média global foi cerca de 1,2°C acima do nível pré-industrial (1850-1900). Os seis anos, desde 2015, foram os mais quentes de que há registro, enquanto o período entre 2011-2020 foi a década mais quente de todos os registros.

Para o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, "todos os indicadores do clima e as informações de impacto destacam a incessante e contínua mudança climática, uma ocorrência crescente e intensificação de eventos extremos, e perdas e danos severos, afetando pessoas, sociedades e economias".

"A tendência negativa do clima continuará durante as próximas décadas, independentemente de nosso sucesso na mitigação. É importante, portanto, investir na adaptação. Uma das formas mais poderosas de adaptação é investir em serviços de alerta precoce e redes de observação meteorológica", defendeu.

Novos recordes, de fato, foram registrados em diferentes partes do mundo. Em uma grande região do Ártico siberiano, as temperaturas em 2020 foram mais de 3°C acima da média, com uma temperatura recorde de 38°C na cidade de Verkhoyansk.

Nos EUA, os maiores incêndios já registrados ocorreram no final do verão e no outono. A seca generalizada contribuiu para os incêndios, e de julho a setembro foram os mais quentes e secos registrados para o sudoeste. O Vale da Morte na Califórnia atingiu 54,4°C em 16 de agosto, a temperatura mais alta conhecida no mundo em pelo menos os últimos 80 anos.

No Caribe, grandes ondas de calor ocorreram em abril e setembro. Cuba viu um novo recorde nacional de temperatura de 39,7°C em 12 de abril. A Austrália bateu recordes de calor no início de 2020, incluindo a temperatura mais alta observada em uma área metropolitana australiana, no oeste de Sydney, quando Penrith atingiu 48,9°C. O verão foi muito quente em partes do leste da Ásia. Hamamatsu (41,1°C) igualou o recorde nacional do Japão em 17 de agosto.

Recordes históricos estabelecidos em Jerusalém (42,7°C) e Eilat (48,9°C) em 4 de setembro, após uma onda de calor no final de julho no Oriente Médio, na qual o Aeroporto do Kuwait atingiu 52,1°C e Bagdá 51,8°C.

Seca no Brasil

Mas o ano também foi de chuvas fortes e inundações extensas em grandes partes da África e da Ásia em 2020, inclusive provocando uma epidemia de gafanhotos do deserto. O subcontinente indiano e áreas vizinhas, China, República da Coreia e Japão, e partes do sudeste asiático também receberam chuvas anormalmente altas em várias épocas do ano.

Já a seca severa afetou muitas partes do interior da América do Sul em 2020, sendo as áreas mais afetadas o norte da Argentina, o Paraguai e as áreas da fronteira ocidental do Brasil. As perdas agrícolas estimadas foram de quase US$ 3 bilhões no Brasil, com perdas adicionais na Argentina, no Uruguai e no Paraguai.

Covid-19 exacerbou crise social

Ao contrário das esperanças iniciais de que uma queda brusca da atividade global levaria uma queda de emissões, os dados revelam que essa redução foi praticamente insignificante. O impacto social da pandemia foi considerado como devastador.

"Em 2020, a covid-19 acrescentou uma nova e indesejável dimensão aos riscos relacionados ao tempo, clima e água, com amplos impactos combinados na saúde humana e no bem-estar", disse.

"Restrições de mobilidade, recessão econômica e perturbações no setor agrícola exacerbaram os efeitos de eventos climáticos e meteorológicos extremos ao longo de toda a cadeia de fornecimento de alimentos, elevando os níveis de insegurança alimentar e retardando a prestação de assistência humanitária", alertou.

Para a ONU, não existem dúvidas de que mudanças climáticas ameaçam metas sociais e podem contribuir para reforçar ou agravar as desigualdades existentes.

Mais de 50 milhões de pessoas foram duplamente atingidas em 2020 por desastres relacionados ao clima e pela pandemia da covid-19, de acordo com a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha. "Isso agravou a insegurança alimentar e acrescentou outra camada de risco às operações de evacuação, recuperação e resgate", indica a ONU.

Um exemplo foi o ciclone Harold, que atingiu Fiji, as Ilhas Salomão, Tonga e Vanuatu e foi uma das tempestades mais fortes já registradas no Pacífico Sul. Ele desencadeou um número estimado de 100 mil deslocamentos. "Devido aos bloqueios e quarentenas da covid-19, as operações de resposta e recuperação foram dificultadas, levando a atrasos no fornecimento de equipamentos e assistência", alerta.

Insegurança alimentar

Um dos impactos identificados por conta da dupla crise envolvendo o clima e a pandemia foi o aumento da fome, após décadas de declínio.

Já antes da pandemia, cerca de 690 milhões de pessoas, ou 9% da população mundial, estavam subnutridas, e cerca de 750 milhões, ou quase 10%, foram expostas a severos níveis de insegurança alimentar em 2019.

"Entre 2008 e 2018, os impactos dos desastres custaram aos setores agrícolas das economias dos países em desenvolvimento mais de US$108 bilhões em prejuízos ou perda da produção agrícola e pecuária. O número de pessoas classificadas sob condições de crise, emergência e fome havia aumentado para quase 135 milhões de pessoas em 55 países em 2019", indicou.

"Os efeitos da pandemia da covid-19 aleijaram a agricultura e os sistemas alimentares, invertendo as trajetórias de desenvolvimento e atrofiando o crescimento econômico", destacou o informe da ONU.

"Em 2020, a pandemia afetou diretamente a oferta e a demanda de alimentos, com rupturas nas cadeias de abastecimento local, nacional e global, comprometendo o acesso a insumos agrícolas, recursos e serviços necessários para sustentar a produtividade agrícola e garantir a segurança alimentar. Como resultado das restrições de movimento agravadas por desastres relacionados ao clima, foram colocados desafios significativos para a gestão da insegurança alimentar em todo o mundo", completou.

A ONU também destaca como, entre 2010 e 2019, eventos climáticos geraram o deslocamento de 23,1 milhões de pessoas por ano. Apenas no início de 2020, esse número foi de 9,8 milhões de pessoas. Mas enchentes na região do Sahel, furacões e outros eventos devem elevar de forma substancial o número de pessoas afetadas.

Emissões

De acordo com o levantamento, a concentração dos principais gases de efeito estufa continuou a aumentar em 2019 e 2020. A média global de dióxido de carbono (CO2) já ultrapassou 410 partes por milhão (ppm) e, se a concentração de CO2 seguir o mesmo padrão dos anos anteriores, poderá atingir ou exceder 414 ppm em 2021.

"A desaceleração econômica deprimiu temporariamente novas emissões de gases de efeito estufa, mas não teve nenhum impacto significativo sobre as concentrações atmosféricas", alerta.

2019 ainda viu o maior conteúdo de calor oceânico registrado, e esta tendência provavelmente continuou em 2020. "A taxa de aquecimento dos oceanos na última década foi maior do que a média de longo prazo, indicando uma contínua absorção de calor retido pelos gases de efeito estufa", explicou. Mais de 80% da área oceânica experimentou pelo menos uma onda de calor marinha em 2020.

O nível médio global do mar aumentou em todo o registro do altímetro de satélite. Recentemente, ele tem subido a uma taxa maior, em parte devido ao maior derretimento das camadas de gelo na Groenlândia e na Antártida. "Uma pequena queda no nível médio global do mar no verão de 2020 foi provavelmente associada ao desenvolvimento das condições de La Niña. De modo geral, o nível médio global do mar continuou a aumentar em 2020", explica.

Cobertura de gelo

O impacto também foi identificado na extensão mínima do gelo no Ártico em 2020. O derretimento da cobertura significou que, pela segunda vez, a extensão de gelo encolheu para menos de 4 milhões de km².

"Nos meses de julho e outubro foram observados níveis recordes de baixas extensões de gelo marinho. As altas temperaturas recordes ao norte do Círculo Ártico na Sibéria provocaram uma aceleração do derretimento dos gelos marinhos nos mares da Sibéria Oriental e Laptev, que viram uma prolongada onda de calor marinha", apontou. A camada de gelo da Groenlândia também continuou a perder massa.