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Jamil Chade

Meta da OMS para vacinar está ameaçada e Brasil pode ser afetado

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde) - Fabrice COFFRINI / POOL / AFP
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde) Imagem: Fabrice COFFRINI / POOL / AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

17/05/2021 11h36


Com vacinas concentradas em poucos países ricos, a OMS admite que o mecanismo criado para distribuir doses pelo mundo dificilmente conseguirá cumprir seu plano original de abastecimento nos países em desenvolvimento para o mês de maio e sua meta para 2021 está ameaçada.

A crise pode afetar o Brasil. A cúpula da organização trabalha para tentar garantir 4 milhões de novas doses de vacinas da AstraZeneca para o país entre o final de maio e início de junho, além de outras 800 mil doses da Pfizer. Mas ainda não existe uma data confirmada.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral a OMS, estima que, até junho, a distribuição pelo mundo ficará abaixo do esperado em 190 milhões de doses. De acordo com a Unicef, até agora, 65 milhões de vacinas foram enviadas para um total de mais de 130 países. Mas a meta era de que, nesta semana, a distribuição total tivesse atingido 170 milhões.

No caso do Brasil, o mês de abril já viu um atraso na entrega de vacinas. Mas, no início de maio, um carregamento com 4 milhões de doses chegou ao país. O Brasil aderiu ao mecanismo internacional, depois de hesitação por parte do ex-chanceler Ernesto Araújo. Quando o país passou a fazer parte, o governo comprou 42 milhões de doses, que seriam entregues até o final do ano de 2021.

Mas a crise não se refere apenas ao Brasil. A concentração de vacinas em países ricos e as barreiras de exportação na Índia diante da crise sanitária local geraram um terremoto no processo de distribuição. Uma parte significativa das vacinas do mecanismo internacional, conhecido como Covax, viria da AstraZeneca e de sua produção pelo Instituto Serum, na Índia.

O governo de Nova Déli passou a proibir a exportação de doses, diante da dimensão da pandemia no país. Isso, na prática, significou que a Covax ficou desabastecida em 140 milhões até maio e pode sofrer mais um atraso de 50 milhões em junho.

No caso brasileiro, o fornecimento viria da Coreia do Sul. Mas com uma penúria mundial diante da explosão da pandemia na Índia, há uma pressão para que parte das doses coreanas seja redirecionada para países que não contam com qualquer outro tipo de abastecimento.

Dos 130 países beneficiados pela Covax, pelo menos 30 deles dependem exclusivamente da OMS para imunizar suas populações.

Bruce Aylward, representante da OMS para vacinas, a realidade é que a meta de vacinar 20% da população dos países em desenvolvimento em 2021 está ameaçada. "Não estamos nesse ponto", disse. Segundo ele, mesmo se a agência tivesse dinheiro, não teria como comprar doses. "A meta está ameaçada neste momento", declarou.

Aylward acredita que esse cenário pode ser revertido. Segundo ele, os países ricos têm condições de vacinar suas populações e ainda liberar doses para que sejam redistruídas aos países mais pobres. As estimativas da agência apontam que os países europeus, EUA e Japão poderiam liberar 153 milhões de doses de seus estoques se abrissem mão de apenas 20% de suas compras já feitas para junho, julho e agosto.

A OMS ainda pede que, depois de várias promessas de países que amplamente vacinaram suas populações, governos comecem a traduzir em realidade as doação. Isso, segundo a agência, precisa ocorrer num espaço de algumas semanas. "Não temos meses para esperar", alertou Aylward.

O apelo por uma ação é direcionada ao G7, que se reúne em junho. Mas a entidade também pede que as empresas farmacêuticas sejam ágeis em modificar seus contratos e permitam que esses países com doses extras façam a doação.

A OMS ainda criticou governos de países ricos que começam já a avaliar a vacinação de crianças, enquanto nos países mais pobres do mundo nem mesmo os idosos e médicos foram imunizados.

De acordo com Tedros, a semana passada foi a segunda consecutiva a registrar uma queda no novo número de pessoas contaminadas pela covid-19. As mortes também foram reduzidas. Mas, segundo ele, há uma disparidade cada vez maior entre a situação de países onde amplas parcelas da população foram vacinas e aqueles locais onde a pandemia ainda vive uma expansão.

Segundo ele, a OMS hoje não tem recursos para lidar com a realidade da crise em 2021 e o abastecimento de vacinas para a Covax tem se concentrado principalmente em promessas de empresas para o segundo semestre do ano.

Tedros, em sua coletiva de imprensa nesta segunda-feira, fez um apelo para que empresas ampliem seus compromissos e apontou que, uma vez reduzida a crise na Índia, vai solicitar que o Instituto Serum volte a exportar.

Já a Unicef também alerta que, enquanto a situação começa a se estabilizar em alguns países ricos, a situação é ainda crítica na Índia, Nepal, Sri Lanka, Maldives, Argentina e Brasil.