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Jamil Chade

REPORTAGEM

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Tensão entre Rússia e EUA ameaça desembarcar nas fronteiras do Brasil

Colunista do UOL

13/01/2022 10h13Atualizada em 13/01/2022 14h55

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Resumo da notícia

  • Negociador russo não descartou opção por presença militar russa na Venezuela e Cuba
  • Gesto seria resposta à insistência de americanos em expandir OTAN para países que formaram parte do bloco soviético, no passado
  • Reuniões diplomáticas nesta semana entre americanos e russos não desarmaram tensão
  • Bolsonaro planeja visitar Putin em fevereiro

A tensão entre americanos e russos em razão das fronteiras entre o Ocidente e as zonas de influência do Kremlin pode desembarcar na América Latina. Nesta quinta-feira, um dos principais negociadores do governo de Vladimir Putin não excluiu a possibilidade de que, se Washington não revir sua posição sobre a expansão da OTAN e de seu apoio aos países que fazem fronteira com a Rússia, Moscou não descarta considerar o envio de soldados para Cuba e Venezuela.

Os dois países latino-americanos são tradicionais aliados dos russos e, ao longo dos últimos anos, receberam importante volume de investimentos de estatais de Moscou.

Americanos e russos realizaram nesta semana reuniões consideradas como estratégicas para tentar desmontar a tensão entre as duas potências. Mas os encontros fracassaram em estabelecer um processo negociador. A Casa Branca quer que Moscou retire de forma imediata 100 mil soldados que foram destacados pelos russos para a fronteira com a Ucrânia e alertou que, em caso de uma invasão, sanções serão aplicadas.

O governo Putin insiste, porém, que quer garantias da OTAN de que seus vizinhos não farão parte da aliança militar ocidental, o que seria considerado como uma ameaça para sua segurança.

Diante do impasse, o vice-ministro das Relações Exteriores Sergei Ryabkov deixou a porta aberta para a possibilidade de que Moscou estabeleça uma estrutura militar em Cuba e na Venezuela, como uma espécie de retaliação ou uma estratégia de equilíbrio de forças.

A lógica é clara: se americanos querem contar com aliados como a Ucrânia e Geórgia, nas portas do território russo, Moscou então também teria suas bases na América Latina.
Nos últimos anos, a oposição venezuelana tem insistido que o regime de Nicolas Maduro se garantiu no poder, em parte, graças ao apoio de Putin. De fato, em eleições contestadas em Caracas, o governo russo de Vladimir Putin atacou a "interferência externa" no processo venezuelano.

Aliado de Caracas e com mais de oito joint-ventures fechadas com os venezuelanos no setor do petróleo, Moscou fez questão de elogiar Maduro. Num telegrama, Putin felicitou o venezuelano pela vitória nas eleições. De acordo com o Kremlin, Putin desejou a Maduro "uma boa saúde e sucesso na solução de desafios sociais e econômicos que o país enfrenta".

Documentos obtidos pela coluna ainda revelaram como estatais russas e do regime chavista usaram uma rede de intermediários com base em paraísos fiscais para criar empresas. Num dos casos, o braço financeiro do Kremlin usou uma empresa implicada em corrupção e lavagem de dinheiro para fechar um acordo de US$ 1 bilhão com a PDVSA.

Em 2013, a instituição financeira Gazprombank ainda anunciou a criação da PetroZamora, na Venezuela. O banco faz parte da Gazprom, a estatal de energia do governo russo e pilar da estratégia política e econômica de Vladimir Putin.

Bolsonaro visitará Putin

A resposta russa ocorre poucas semanas antes de uma possível viagem do presidente Jair Bolsonaro para Moscou, convidado por Putin. Isolado no cenário internacional, o brasileiro acenou com uma aproximação ao russo. No campo americano, o flerte brasileiro resultou numa preocupação por parte dos americanos sobre um posicionamento mais brando por parte de Bolsonaro, diante das ameaças russas na Ucrânia.

Questionado se esse deslocamento de tropas poderia ser uma resposta de Moscou, Ryabkov afirmou à RTVI TV que "tudo depende da ação de nossos homólogos americanos". Segundo ele, Putin já alertou que a Rússia poderia tomar medidas militares se fosse provocada.

Na entrevista, Ryabkov confirmou que não houve nesta semana um acordo para impedir a expansão da aliança para a Ucrânia e outras nações ex-soviéticas. Já o Kremlin, por meio de seu porta-voz, indicou que "as discordâncias permaneceram sobre questões principais, o que é ruim".