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Jamil Chade

REPORTAGEM

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Biden recebe apelo para que pressione Bolsonaro a respeitar a democracia

O presidente dos EUA, Joe Biden, fala na Conferência da Cidade do Congresso da Liga Nacional das Cidades no Marriott Marquis em Washington, DC, em 14 de março de 2022 - Nicholas Kamm/AFP
O presidente dos EUA, Joe Biden, fala na Conferência da Cidade do Congresso da Liga Nacional das Cidades no Marriott Marquis em Washington, DC, em 14 de março de 2022 Imagem: Nicholas Kamm/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

07/06/2022 17h06

O presidente dos EUA, Joe Biden recebeu nesta manhã em Washington uma carta assinada por algumas das principais entidades da sociedade civil brasileira com um pedido: cobre de Jair Bolsonaro o respeito pela democracia, eleição livre e proteção da floresta.

Os dois líderes se reunirão nos próximos dias, às margens da Cúpula das Américas, em Los Angeles. Biden evitou por meses qualquer contato com o brasileiro e sequer telefonou para Bolsonaro desde que assumiu a presidência. O brasileiro havia apoiado os argumentos do candidato derrotado nas eleições americanas, Donald Trump, de que o resultado havia sido fraudado.

Mas, diante de uma cúpula esvaziada, Biden atendeu a um antigo pedido por um encontro, na tentativa de convencer o brasileiro a viajar aos EUA.

Há, dentro do Itamaraty, um entendimento de que o americano não usará o encontro para humilhar publicamente Bolsonaro. Mas a sociedade civil, agora, insiste que a reunião pode ser usada pelo presidente como uma chancela de seu governos e seus atos de ataques contra a democracia.

A carta fazendo o pedido ao presidente americano foi assinada por mais de 70 entidades, entre elas a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Artigo 19, Comissão Arns, Conectas Direitos Humanos, Greenpeace Brasil, Instituto Vladimir Herzog, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e a Washington Brazil Office. O UOL foi informado que o documento chegou até a equipe de Biden.

"Entendemos seus objetivos de reunir as Américas através da Cúpula, especialmente diante da crise na Europa. No entanto, enviamos esta carta para exortá-lo, durante sua reunião, a defender firmemente a democracia, eleições livres e justas, a ação climática e a proteção essencial da floresta tropical. Se a democracia brasileira cair, Sr. Presidente, todos os seus esforços para "Construir um futuro sustentável, resistente e equitativo" na Cúpula das Américas terão sido em vão", apontam as entidades.

"Como organizações da sociedade civil brasileira, expressamos nossa preocupação de que o presidente Jair Bolsonaro estará usando sua próxima reunião com o senhor para reivindicar que sua administração endossa seus ataques à democracia, eleições livres e justas, ao meio ambiente, à ciência, aos direitos humanos básicos e à Floresta Amazônica", alertam.

O grupo, ainda formado por entidades que representam o movimiento LGBTQIA+ e outros setores, também fez questão de lembrar ao americano as diferenças que existem entre os dois líderes.

"Sr. Biden, o homem que o senhor convidou para um diálogo especial é um anátema de valores críticos que a maioria dos americanos preza. Enquanto o senhor busca o controle de armas de senso comum nos Estados Unidos, p sr. Bolsonaro está introduzindo mais armas na sociedade brasileira e promovendo grupos paramilitares", apontam.

"Enquanto suas políticas para a pandemia pretendiam abraçar a ciência, o sr. Bolsonaro tratou a máscara e as vacinas -especialmente para crianças- com hostilidade. Enquanto o senhor escolheu a primeira mulher negra vice-presidente, a primeira Secretária Indígena e a primeira mulher negra para o Supremo Tribunal de Justiça, o sr. Bolsonaro encheu seu Gabinete com supremacistas brancos e comparou os afro-brasileiros ao gado", afirmam.

"Enquanto o senhor defende o amor e a inclusão, o sr. Bolsonaro incentivou a violência física contra a comunidade LGBTQIA+", destacam.

Matar a democracia no maior país da América Latina

Mas o alerta se refere às intenções do presidente brasileira com uma eventual ruptura democrática.

"Neste momento, a inflação, a fome, a violência e o desmatamento estão aumentando no Brasil. Em vez de tirar seu país da crise, o Sr. Bolsonaro está encenando um golpe de Estado. Ele está atacando nossa Suprema Corte e lançando as bases para desacreditar as próximas eleições e matar a democracia no maior país da América Latina", disseram.

"Estamos nos preparando para a versão de Bolsonaro de um 6 de janeiro se ele perder a reeleição", alertam os grupos, numa referência à data da tentativa de invasão do Capitólio por apoiadores de Donald Trump.

O documento também insiste para que os americanos não acatem as políticas ambientais do governo brasileiro. "A continuação do governo do sr. Bolsonaro condenaria a Floresta Amazônica e seus povos, destruindo todas as poucas chances que o mundo ainda tem de manter viva a meta de 1,5C", dizem.

"Qualquer acordo com o Brasil sobre a Amazônia deve envolver a sociedade civil. As conversações só devem avançar quando o Brasil provar seu compromisso com a proteção da floresta, cortando as taxas de desmatamento e interrompendo os esforços políticos para enfraquecer as leis ambientais através de várias propostas de lei que são apoiados pelo sr. Bolsonaro", defendem.

"Esperamos que seus valores e princípios o guiem a tomar as melhores decisões para o futuro da democracia, cooperação, paz, amizade e liberdade em nosso continente", completa o grupo, ainda formado por entidades como o Instituto de Referência Negra Peregum, Instituto Marielle Franco, Instituto Sou da Paz, Jornalistas Livres e Observatório do Clima.