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Bolsonaro atira na imprensa e acerta o próprio pé

UESLEI MARCELINO
Imagem: UESLEI MARCELINO
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/12/2019 20h56

Jair Bolsonaro concedeu uma entrevista natalina a José Luiz Datena. Queria tranquilizar o país. Escorregara no banheiro do Alvorada na véspera. Batera com a cabeça no chão. Passara a noite no hospital, sob monitoramento. "Eu perdi a memória parcial", contou. "Hoje de manhã comecei a recuperar muita coisa..." Na conversa, revelou-se alheio à realidade processual do filho Flávio. Meio fora de si, mostrou o que tem por dentro. Atribuiu à Globo o drama do Zero Um. Ou seja: está 100% recuperado.

Bolsonaro comete um erro comum aos políticos em apuros. Não consegue perceber que a imprensa, embora se alimente da crise, não é a crise. "Quando alguém erra, a lei é aplicada", declarou. "O processo dele está correndo em segredo de Justiça. O que justifica esse vazamento [de informações] para aquela grande rede de televisão? Acho que o objetivo dessas divulgações é me prejudicar".

Por enquanto, o nome da crise é Flávio Bolsonaro. Ao chamar a encrenca de Globo, o capitão sinaliza que a crise logo, logo pode ser rebatizada. Quando passar a se chamar Jair Bolsonaro, o presidente começará a enxergar o óbvio: pior do que uma crise, só duas crises.

Bolsonaro ainda não reparou, mas não é possível desfazer uma crise criando-se outra maior. Pior do que uma encrenca envolvendo o primogênito do monarca, só duas encrencas: a do filho e outra estrelada pelo pai. O melhor seria resolver a crise, condenando a imprensa a mudar de assunto. Mas Bolsonaro, especialista em criar crises, não sabe como desfazê-las. Por isso, atira na imprensa sem notar que acerta o próprio pé.

Josias de Souza