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Bolsonaro potencializa o distanciamento de Moro

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/12/2019 22h03

Ao sancionar a criação do juiz de garantias no pacote anticrime, Jair Bolsonaro distanciou-se como nunca de Sergio Moro, potencializando um processo que vem de longe. Em dezembro de 2018, dias antes de assumir o cargo de ministro, Moro declarou numa entrevista: "Eu não assumiria um papel de ministro da Justiça com o risco de comprometer a minha biografia, o meu histórico." Dois meses depois, em fevereiro de 2019, Jair Bolsonaro ordenou a Moro que desnomeasse a cientista política Ilona Szabó, que havia acabado de ser acomodada numa cadeira de suplente de um conselho reles da pasta da Justiça. Desde então, Moro coleciona no governo revezes que comprometem a biografia que ele dizia não estar disposto a comprometer.

Quando o seu pacote anticrime e anticorrupção foi enviado para o fundão da pauta do Legislativo, Moro se desentendeu com Rodrigo Maia, não com seu chefe. O presidente da Câmara disse na época: "Ele conversa com o presidente Bolsonaro e, se o presidente Bolsonaro quiser, conversa comigo." Maia sentiu-se à vontade para ironizar Sergio Moro, afirmando que seu pacote era um "copia e cola" de outra proposta, elaborada sob a coordenação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo.

Em vez de reagir, Moro dobrou os joelhos. Concordou em transferir a criminalização do caixa dois do pacote principal para um projeto anexo, já devidamente esquecido. Vieram na sequência a perda do Coaf, o convívio com os aliados de Bolsonaro indiciados, o silêncio do presidente diante do fim da prisão na segunda instância e a aprovação de um pacote anticrime desfigurado, sem o pedaço anticorrupção.

Quando se imaginava que o encolhimento de Moro chegara ao limite, Bolsonaro presenteou o ministro, na véspera do Natal, com a sanção do artigo que cria o juiz de garantias. Atingiu-se o ápice da ironia: O pacote prioritário de Moro ganhou uma ferramenta anti-Moro. O objetivo de Bolsonaro é proteger o filho Flávio e a si próprio. Quanto a Moro, chega às portas de 2020 como um ministro que transforma sua passagem pelo governo num processo de autocombustão. Moro agora já divulga notas para expressar sua contrariedade. Mas a dúvida permanece: a que temperatura ferve Sergio Moro?

Josias de Souza