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Guedes não pisou num tomate, mas num tomateiro

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Br
Imagem: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Br
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

07/02/2020 18h23

Ao comparar, em termos genéricos, os servidores públicos a parasitas, Paulo Guedes selecionou as palavras com o mesmo desmazelo de Fernando Henrique Cardoso quando chamou aposentados de "vagabundos". A declaração do ministro da Economia custará caro.

A alma de Paulo Guedes tem mistérios indecifráveis. No início do governo, sonhando em voz alta, o Posto Ipiranga disse que era preciso dar uma "prensa no Congresso".

Numa palestra para investidores nos Estados Unidos, o ministro declarou, num timbre orgulhoso, que o Brasil agora tem "um presidente que adora coca-cola e Disneylândia."

Guedes também já produziu comentários que foram interpretados como uma defesa do AI-5. O mais surpreendente é que o ministro faz esse tipo de declaração como se pisasse nos astros, distraído.

Agora, sem medir as consequências, Paulo Guedes saiu-se com outra: chamou todos os servidores públicos, indistintamente, de parasitas. Fez isso ao se queixar dos reajustes salariais do funcionalismo, acima da inflação.

Além dos aumentos, disse o ministro, o funcionalismo "tem estabilidade na carreira e aposentadoria generosa." Guedes caprichou na analogia: "O hospedeiro [o Estado] está morrendo, o cara [o servidor] virou um parasita. O dinheiro não chega no povo e ele quer reajuste automático."

A imagem dos servidores junto à clientela, de fato, não é boa. A má fama encontra respaldo na precariedade dos serviços públicos e no excesso de privilégios de uma casta que alcançou o topo da carreira.

Entretanto, nem todo servidor é parasita. Se olhasse ao redor, Paulo Guedes encontraria na sua própria equipe pessoas que não merecem a generalização. Por exemplo: Mansueto de Almeida, secretário do Tesouro Nacional, é um servidor público de mostruário. Há muitos outros.

Paulo Guedes está subordinado a um presidente encrenqueiro. Em um ano, Jair Bolsonaro brigou em toda parte. No Planalto, enviou para o olho da rua até amigos generais. No Congresso, brigou inclusive com seu partido. Na rua, defronte do Alvorada, ofendeu jornalistas, caluniou ONGs, desafiou governadores, fez o diabo.

Nesse ambiente, as reformas pós-Previdência foram sendo enviadas para um pantanoso segundo plano. Caberia a Paulo Guedes carregar baldes de água fria. Mas o ministro achou que seria uma boa ideia borrifar gasolina na conjuntura.

Paulo Guedes ofereceu ao pedaço parasita da máquina pública a possibilidade de riscar o fósforo. A frase, por desnecessária, pode custar caro. O ministro não pisou num tomate, ele esmagou um tomateiro

Com sorte, seus comentários servirão apenas para elevar o grau de resistência à reforma administrativa no Planalto e no Congresso. Com azar, as palavras do ministro serão usadas como pretexto para enviar as propostas de mudança para o beleléu.

Josias de Souza