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Nos planos do governo, nada corre como planejado

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

17/02/2020 15h53

Ao comentar a decisão do governo de não realizar concursos públicos, Jair Bolsonaro pronunciou uma dessas frases que lembram o célebre Conselheiro Acácio, aquele personagem do livro O primo Basílio, de Eça de Queirós, que dizia obviedades num tom solene. O presidente declarou que o governo não pode ser "irresponsável" e abrir concursos públicos que sejam desnecessários. Impossível discordar.

Mas a questão é outra. O governo precisa fornecer uma resposta para a pergunta que se esconde atrás do raciocínio acaciano do presidente: como fazer para evitar que a trava na contratação de novos servidores prejudique a qualidade já bem precária dos serviços públicos? Sobre isso, Bolsonaro não disse nada. E não foi por falta de motivo. Nos guichês do INSS, há quase dois milhões de brasileiros à espera de uma resposta do governo na fila dos pedidos de aposentadoria, de auxílio-doença e auxílio-maternidade.

Desde que assumiu o ministério da Economia, Paulo Guedes disse que não haveria novos concursos. Servidores que se aposentassem não seriam substituídos. Em compensação, o governo investiria em tecnologia e digitalização. O desejo de realizar uma reforma administrativa reforçou esses planos. Não faria sentido contratar servidores que permanecerão na máquina pública por mais de três décadas com base em regras que se deseja modificar.

A estimativa do governo é de que 60 mil servidores se aposentarão em três anos. Faz todo sentido investir na digitalização de serviços. Esse tipo de modernidade já está presente na Receita Federal. Para avançar sobre o bolso dos brasileiros, o governo é eficientíssimo. Mas a eficiência tecnológica não chegou aos guichês que lidam majoritariamente com a clientela pobre do Estado.

Os servidores se aposentam, Bolsonaro retarda a apresentação da reforma administrativa, e a digitalização não passa de um movimento à espera de se transformar em ação. No momento, a única certeza do planejamento traçado pelo governo para resolver os problemas da máquina do Estado é que as coisas nunca correm como foram planejadas.

Josias de Souza