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Bolsonaro se autoimpôs um confinamento político

Ueslei Marcelino
Imagem: Ueslei Marcelino
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

25/03/2020 15h09

O Brasil pós-redemocratização elegeu cinco presidentes: Collor, FHC, Lula, Dilma e Bolsonaro. Dois foram enviados para casa antes de concluir os seus mandatos: Collor e Dilma. Isso corresponde a uma taxa de mortalidade política de 40%. De acordo com o Ministério da Saúde, o índice de letalidade do coronavírus no Brasil é, por enquanto, dezenove vezes menor: 2,1%.

Tomado pelo comportamento ciclotímico e pelas declarações mais recentes, Bolsonaro parece movido pelo desejo secreto de elevar o índice de mortalidade política dos presidentes brasileiros para 60%. Ao defender a suspensão imediata do isolamento social, o presidente se autoimpôs um confinamento político. Isolou-se dos governadores, dos prefeitos e também do Congresso.

Muitos ainda procuram uma lógica política para a movimentação de Bolsonaro. Mas não se deve buscar fundamentos políticos em algo que pode ser explicado adequadamente pela estupidez. Não há na argumentação do presidente nenhum vestígio de ciência, apenas achismo.

Para um presidente que foi salvo pela medicina depois de sofrer uma facada na campanha de 2018, o abandono da ciência revela uma patologia. Bolsonaro deixou-se infectar pelo vírus da ignorância. Suas manifestações indicam que o contágio atingiu o grau máximo, que é quando o doente ignora a própria ignorância.

Bolsonaro defende que os brasileiros se exponham ao contágio do coronavírus sob o argumento de que é "nossa vida tem que continuar", "os empregos devem ser mantidos. O sustento das famílias deve ser preservado." Bolsonaro sugere uma falsa opção: o risco de um número maior de mortes em troca de um PIB melhor.

Nesse ritmo, o presidente vai acabar convencendo a maioria dos brasileiros de que é melhor matar mais um mandato presidencial do que manter no comando um presidente que coloca em segundo plano a vida dos cidadãos que deveria defender. Com sua insensibilidade, Bolsonaro recolocou a carta do impeachment no baralho.

Josias de Souza