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Bolsonaro vê na cloroquina a cura para comportamento errático do governo

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

09/04/2020 01h23

O presidente Jair Bolsonaro realiza um novo esforço para se reposicionar na crise do coronavírus. Ele mantém a aversão à tática do isolamento social. Mas tenta desfazer a impressão de que se preocupa apenas com a saúde da economia. "Não restam dúvidas de que o nosso objetivo principal sempre foi salvar vidas", declarou, ao solidarizar-se pela primeira vez com as famílias dos mortos da pandemia, em novo pronunciamento transmitido em rede nacional. Nele, Bolsonaro radicalizou na defesa do uso indiscriminado da cloroquina ou da hidroxicloroquina no tratamento contra a covid-19, doença causada pelo novo vírus.

Como não há amparo científico para a aplicação do remédio senão em casos graves ou críticos, ficou a impressão de que Bolsonaro, na verdade, aplica a cloroquina no tratamento de uma patologia política que acomete a sua Presidência, levando-o a adotar um comportamento errático diante da pandemia que chamou de "gripezinha".

Simultaneamente, Bolsonaro arranjou uma forma de atribuir um conteúdo fúnebre ao discurso dos defensores do confinamento como melhor alternativa para salvar vidas. "As consequências do tratamento não podem ser mais danosas que a própria doença", declarou. "O desemprego também leva à pobreza, à fome, à miséria, enfim, à própria morte."

O presidente escorou sua nova investida numa manifestação do cardiologista Roberto Kalil Filho, do hospital Sírio Libanês. Infectado pelo vírus, ele admitiu ter utilizado hidroxicloroquina. Fez isso, segundo disse, porque estava hospitalizado em estado grave e desejava evitar a evolução para a fase crítica, com transferência para a UTI. Explicou que o tratamento incluiu outros medicamentos —corticoides e antibióticos, por exemplo. Declarou que, em condições análogas às suas, recomenda o uso da cloroquina.

Abstendo-se de mencionar os detalhes, Bolsonaro tomou o exemplo de Kalil como uma espécie de 'liberou geral'. "Há pouco conversei com o doutor Roberto Kalil. Cumprimentei-o pela honestidade e compromisso com o juramento de Hipócrates. Ao assumir que não só usou a hidroxicloroquina bem como a ministrou para dezenas de pacientes. Todos estão salvos. Disse mais: que mesmo não tendo finalizado o protocolo de testes, ministrou o medicamento agora para não se arrepender no futuro. Essa decisão poderá entrar para a história como tendo salvo milhares de vidas."

Mais cedo, Bolsonaro politizara o medicamento em suas redes sociais. Sem mencionar-lhes os nomes, insinuara que Kalil e outro médico, o infectologista Davi Uip, que também se curou após amargar um teste positivo para o coronavírus, recusavam-se a admitir o uso de cloroquina por razões políticas.

Kalil é médico de Lula e de Dilma Rousseff. Uip coordena o comitê formado pelo governador paulista João Doria para gerenciar a pandemia em São Paulo. Bolsonaro fustigou dois dos mais respeitados médicos do país para reforçar a tese de que seus rivais, João Doria sobretudo, utilizariam o coronavírus como pretexto para desgastar o seu governo.

Nessa versão, haveria um complô para esconder o sucesso da cloroquina no combate ao novo vírus pela simples razão de que Bolsonaro propagandeara o remédio, nas pegadas de Donald Trump. Abespinhado, Davi Uip pediu "respeito". Recordou que Bolsonaro, mesmo sendo presidente, recusou-se a exibir o exame a que se submeteu para saber se o coronavírus o infectara.

Bolsonaro não se deu por achado. "Após ouvir médicos, pesquisadores e chefes de Estado de outros países, passei a divulgar, nos últimos 40 dias, a possibilidade de tratamento da doença desde sua fase inicial", declarou na TV, como se reivindicasse a paternidade de um medicamento que é usado há cinco décadas no tratamento de doenças como malária e lúpus.

Horas antes, em conversa com o apresentador Datena, da Band, o capitão soou em timbre mais coloquial. Parecia falar na linguagem rude com que se comunica com os seus súditos. Disse que não hesitaria em autorizar o uso da cloroquina para tratar sua própria mãe, caso ela fosse infectada. Insinuou que, com a retaguarda da cloroquina, excetuando-se os idosos do grupo de risco, os demais brasileiros deveriam desafiar o vírus nas ruas. "Não adianta ficar dentro de casa reclamando. O pessoal tem que encarar isso aí."

O Bolsonaro da entrevista associou o isolamento social a providências adotadas em tempos de exceção. "...Não podemos viver em um clima de guerra também, com toque de recolher." O presidente do pronunciamento formal, escrito com antecedência pela assessoria, temperou o linguajar: "Respeito a autonomia dos governadores e prefeitos".

No bate-papo com Datena, Bolsonaro reiterou que está pronto o decreto que determina a reabertura do comércio. Só não foi editado, segundo disse, porque o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, declarou que o Congresso derrubaria a iniciativa. Admitiu que a peça poderia ser revista também pelo Judiciário.

Na fala em rede nacional, o orador, ciente da ruína econômica que está por vir, tomou distância novamente das medidas adotadas por governadores e prefeitos. "São de responsabilidade exclusiva dos mesmos. O governo federal não foi consultado sobre sua amplitude ou duração."

Com Datena, presidente constatou de que "algumas cidades já começaram a flexibilizar [o isolamento social]." Nessas localidades, já se nota o "aumento no trânsito, aos poucos as coisas vão se normalizando". Na TV, Bolsonaro trombeteou as providências que seu governo adotou, com atraso, para socorrer pessoas e empresas vulneráveis.

Bolsonaro esqueceu de lembrar (ou lembrou de esquecer) que a demora na adoção e implementação de providências como o pagamento por três meses de R$ 600 a brasileiros que ficaram sem renda conspirou a favor da flexibilização do isolamento que ele diz constatar em "algumas cidades".

A certa altura do pronunciamento exibido em horário nobre, Bolsonaro sentiu a necessidade de recordar ao país que ele é o presidente da República. "Tenho a responsabilidade de decidir sobre as questões do país de forma ampla, usando a equipe de ministros que escolhi para conduzir os destinos da nação. Todos devem estar sintonizados comigo."

Ironicamente, o presidente reunira-se mais cedo com seu ministro da Saúde, Henrique Mandetta. O mesmo que esteve na bica de ser enviado ao olho da rua no início da semana por falta de sintonia com o chefe. Embora continue pensando o oposto do que Bolsonaro declara, Mandetta permanece no cargo. Em entrevista, disse seguir a liderança do presidente. Chegou mesmo a pronunciar uma crítica a João Doria, hoje o principal desafeto de Bolsonaro.

Instado por Datena a comentar o resultado da reunião que tivera com Mandetta, Bolsonaro desconversou: "Só foi eu e ele. De modo que, se vazar alguma coisa, vai ser por parte dele. Ele disse a mesma coisa: se vazar alguma coisa seria da minha parte. Então... Eu sou presidente e ele é ministro. Acima de nós dois está o interesse do Brasil."

Vocês se acertaram?, insistiu o entrevistador. E Bolsonaro: "...Até em casa tem problema muitas vezes com a esposa, com o esposo. É comum acontecer num momento em que todo mundo está estressado de tanto trabalho. Eu estou, ele está. Mas foi tudo acertado. Segue a vida." O senhor não pensou em mudar o ministro? Bolsonaro caiu na gargalhada. "Um beijo pra você, Datena. Um abraço hétero pra você."

Mandetta também foi questionado pelos jornalistas sobre seu encontro com Bolsonaro. Disse que foi "uma reunião de trabalho". Afagou: "O presidente é muito parceiro". Proclamou: "Quem comanda esse time aqui é o presidente Jair Messias Bolsonaro."

Na mesma entrevista, o ministro fez declarações que o colocam novamente na contramão do chefe. Afirmou, por exemplo, que não é hora de relaxar o isolamento social nas cidades em que o vírus avança mais vigorosamente. Mencionou Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza e Brasília.

Mandetta também reiterou suas restrições ao uso indiscriminado da cloroquina. "Será que seria inteligente dar um remédio para 85% das pessoas que não precisam desse remédio? É um remédio que tem efeitos colaterais. Será que vale a pena? Vamos dar para aqueles que têm mais de 60 anos, mais de 70 anos, mais de 80 anos? Ora, esses que são os que mais podem complicar, que mais vão para o CTI, também são os mesmos que têm maior parte de problemas cardíacos e hepáticos."

Quer dizer: Mandetta vai ficando no governo como um ministro em estado crônico de demissão. Como não há evidência científica de a cloroquina cure disfunções políticas, Bolsonaro pode apresentar a qualquer momento uma nova convulsão como a que levou a assessoria do ministro da Saúde a limpar as suas gavetas na última segunda-feira, antes que os generais do Planalto entrassem em cena para acalmar o presidente.

Este foi o quinto pronunciamento de Bolsonaro em rede nacional desde que a crise do coronavírus se instalou no Brasil. Tomado pelas palavras, o presidente já concedeu alta a si mesmo. O panelaço que voltou a soar nas janelas durante o pronunciamento indica, no entanto, que Bolsonaro não está livre de ser transferido da enfermaria para a UTI.

Josias de Souza