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Reação tardia deu a Moro jeitão de Vênus de Milo

Sergio Moro, ex-ministro da Justiça, em entrevista à Rede Globo - Rede Globo/Reprodução
Sergio Moro, ex-ministro da Justiça, em entrevista à Rede Globo Imagem: Rede Globo/Reprodução
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

25/05/2020 03h33

Durante um ano e quatro meses, Sergio Moro desempenhou funções incompatíveis sob Jair Bolsonaro: ministro da Justiça e engolidor de sapos. Agora, afirma que deixou o governo porque se negou a ser papagaio de Bolsonaro. Faltou explicar por que ostentou por tanto tempo o silêncio que o fez incorporar-se à paisagem de Brasília como atração turística.

"Me desculpem os seguidores do presidente se essa é uma verdade inconveniente, mas essa agenda anticorrupção não teve impulso por parte do presidente para que nós implementássemos", disse Moro ao programa Fantástico, na noite deste domingo (24). Ele citou a perda do Coaf, o descaso do Planalto com pacote anticorrupção e a aliança do presidente com políticos de prontuário notório.

Deve-se pedir escusas a Moro para recordar que Bolsonaro tirou a carta da moralidade do baralho desde o ano passado. O Coaf foi da Justiça para os fundões do Banco Central, Moro digeriu. O Planalto desprezou o pacote anticorrupção, desossado no Congresso. Moro engoliu.

Indiciado pela Polícia Federal e denunciado pelo Ministério Público no caso do laranjal do PSL de Minas Gerais, o ministro Marcelo Álvaro Antonio continuou no comando da pasta do Turismo como se nada tivesse sido descoberto sobre ele. Moro deglutiu. O que deixa sem nexo a cara de nojo que o ex-juiz faz agora para o centrão.

"A gota d'água pra mim foi a interferência na Polícia Federal, em particular porque a PF também investiga malfeito dos próprios governantes", declarou Moro. Ora, essa goteira foi inaugurada em agosto de 2019. Bolsonaro disse que seria um "presidente banana" se não pudesse trocar o chefe da PF no Rio. Ou o diretor-geral, em Brasília. Foi nessa época que o delegado Ricardo Saadi foi retirado da superintendência da PF no Rio. Caiu por excesso de eficiência.

Perguntou-se a Moro por que ouviu em silêncio as ameaças de Bolsonaro e os despautérios de outros ministros na reunião ministerial de 22 de abril. E ele: "Pelo tom da reunião é claro ali que o contraditório não é algo fácil de ser realizado na ocasião. Essas situações geravam desconforto."

"Minha lealdade ao próprio presidente demanda que eu me posicione com a verdade e não apenas concordando com a posição do presidente", afirmou Moro, para explicar o seu desembarque tardio. "Se for assim, não precisa de um ministro, precisa de um papagaio."

Difícil saber o que é pior, se o papel de papagaio ou de atração turística. Ministros precários como Abraham Weintraub e Ricardo Salles se habituaram a coabitar com Moro fotos de reuniões ministeriais como se posassem ao lado das cataratas de Iguaçu, onde o perigo é apenas presumido. No encontro de 22 de abril, Moro tinha uma aparência de Vênus de Milo. A inação do então ministro estimula o debate sobre a forma como ele perdeu os braços no período em que esteve no governo.

Josias de Souza