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Josias de Souza

Inquérito sobre fake news deixa Bolsonaro 'colérico'

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/05/2020 19h40

As visitas da Polícia Federal a endereços de bolsonaristas tiraram Jair Bolsonaro do sério. Na expressão de um auxiliar, "o presidente ficou colérico" com as batidas de busca e apreensão realizadas por policiais federais no âmbito do inquérito sobre fake news, relatado no Supremo Tribunal Federal pelo ministro Alexandre de Moraes. Para Bolsonaro, Moraes move-se para atingir "o meu governo e filho meu": Carlos Bolsonaro, o Carluxo.

Chefe de uma organização familiar, Bolsonaro comporta-se como presidente de uma filhocracia. Já responde a inquérito no Supremo Tribunal Federal sob a suspeita de intervir politicamente na PF para evitar "sacanagens" contra familiares e amigos.

Agora, Bolsonaro ameaça peitar a Suprema Corte em reação à investida de Moraes contra parlamentares, ativistas e empresários bolsonaristas. Escora-se no fato de que o inquérito possui legalidade duvidosa. Foi aberto pelo presidente da Corte, Dias Toffoli, sem a participação do Ministério Público, braço acusador do Estado.

Implacável, a conjuntura ofereceu a Bolsonaro um ensinamento: quem com PF deseja ferir, com PF será ferido. O esforço do presidente para faturar politicamente com ações policiais expôs precariedade intelectual, truculência política e inabilidade funcional.

Bolsonaro revelou-se precário porque a mesma PF que o Superior Tribunal de Justiça colocou nos calcanhares do seu rival Wilson Witzel estoura, por determinação do Supremo Tribunal Federal, o esquema bolsonarista nas redes sociais.

A truculência do presidente revelou-se na ligeireza com que ele anunciou, nesta quarta-feira, que "vai ter mais" ações da PF. Foi como se desejasse sinalizar para governadores rivais que há uma nova Polícia Federal na praça, submetida aos desejos do presidente.

Bolsonaro mostrou-se um gestor inábil porque compromete a imagem respeitosa de órgão de Estado que a PF solidificara na Lava Jato. Até o Supremo passou a suspeitar. Preventivamente, Moraes proibiu a PF de modificar a equipe que toca o inquérito que roça no chamado "gabinete do ódio" do bolsonarismo.

O mais inusitado é que Bolsonaro e os filhos produzem sozinhos as crises que drenam as atenções do governo. Dispensam o auxílio da oposição. E dão de ombros para a evidência de que a prioridade nacional é a crise do coronavírus.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL