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Faria discursa como ministro do governo errado

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

17/06/2020 21h24

Fábio Faria, o novo ministro do velho Ministério das Comunicações, utilizou expressões que se tornaram inusuais na Brasília de Bolsonaro. Coisas como "abertura ao diálogo", "armistício patriótico, eliminação de "diferenças político-ideológicas", "pacificar o país" e "levantar a guarda contra o coronavírus". O ministro expressou-se com respeito aos que pensam diferente. Ou seja: Fábio Faria pronunciou ao lado de Bolsonaro não um discurso de posse, mas um libelo de oposição.

O diálogo preferido de Bolsonaro é aquele em que ele faz o interlocutor calar a boca. A ideia de armistício não orna com a Presidência de trincheira que funciona sob Bolsonaro. O presidente não parece interessado em eliminar, mas em realçar as diferenças político-ideológicas. De costas para a pacificação, o presidente guerreia no momento com o Supremo. Bolsonaro tampouco está interessado em "levantar a guarda contra o coronavírus". No enredo do presidente, o combate ao vírus foi transferido pelo Supremo aos governadores e prefeitos.

Quem ouviu o novo inquilino da Esplanada teve a sensação de que Fábio Faria virou ministro do governo errado. Essa impressão foi potencializada pelos afagos do novo ministro nos meios de comunicação tradicionais. "A mídia continua entre as prioridades desse governo", disse o ministro, antes de elogiar indistintamente a TV aberta e fechada, os jornais impressos, os veículos de internet. Resta saber quem deu procuração a ele para dizer que a mídia é prioridade. Não há de ter sido Bolsonaro.

A plateia presente à posse também passou a impressão de que Fábio Faria assumiu o Ministério das Comunicações de um país paralelo. Olhando para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, um desafeto da família Bolsonaro, o ministro chamou-o de "amigo". Recebeu aplausos de Dias Toffoli, o presidente de um Supremo que Bolsonaro acusa de tramar sua derrubada. Fábio Faria falou no discurso de "esperança" e "amor". Ou o ministro se dá conta de que entrou no governo para solidificar a blindagem do centrão contra eventuais ameaças ao mandato de Bolsonaro ou sua gestão esperançosa e amorosa pode ter vida curta.

Josias de Souza