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Família Bolsonaro enfrenta sua pandemia judicial

Roberto Jayme/Ascom/TSE
Imagem: Roberto Jayme/Ascom/TSE
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

03/07/2020 02h21

Vistas separadamente, as aflições ético-jurídicas dos membros do clã Bolsonaro são infecções decorrentes da falta de higiene política. Juntas, as agonias do pai e dos seus três filhos com mandatos eletivos compõem uma espécie de pandemia familiar na qual os membros da dinastia contagiam-se uns aos outros.

Investigado no Supremo, Jair Bolsonaro pede para ser interrogado por escrito. Esquadrinhado na primeira instância num caso de rachadinha estadual, o senador Flávio Bolsonaro busca refúgio no foro privilegiado. Às voltas com uma rachadinha municipal, o vereador Carlos Bolsonaro perde o privilégio e desce para mesa de um juiz de primeiro grau.

Se tudo isso fosse pouco, o deputado Eduardo Bolsonaro achou que seria uma boa ideia anunciar que vem aí um "momento de ruptura" institucional. Falta apenas definir quando virá. Até Augusto Aras notou que não pegou bem. Abriu na Procuradoria uma investigação para apurar se houve atentado contra a democracia.

O que há de comum nos quatro casos é que nenhum deles precisava ter acontecido. Bolsonaro não precisava empurrar Sergio Moro para fora do governo. Ao converter o ministro em delator expôs o plano de intervir na PF para evitar o surgimento de "sacanagem" contra o primogênito e o amigo Fabrício Queiroz.

Flávio não precisava ter empurrado sua rachadinha para dentro da Presidência do pai. Bastaria ter levantado o tapete do seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio em dezembro de 2018, quando as manchetes começaram a perguntar: "Onde está o Queiroz?" Doeria, mas o estrago político seria menor.

Carlos não precisava repetir o irmão mais velho. Se adotasse para si os princípios morais que cobra dos adversários, teria dito em casa que assombrar a folha salarial do gabinete de vereador com parentes da ex-mulher do seu pai não pegaria bem.

Quanto a Eduardo, suposto ideólogo do clã Bolsonaro, ele não precisava fornecer ao procurador-geral da República evidências do déficit que carrega entre as orelhas. Complicou-se ao tentar expressar com palavras uma ideologia cuja principal característica é a ausência de ideias.

Desde a chegada da pandemia do coronavírus, Bolsonaro vive assombrado pela sensação de que a ruína econômica pode acabar com o seu governo. Livrou-se de dois ministros da Saúde; ornamentou aglomerações golpistas, uma delas na frente do QG do Exército; expulsou da Esplanada o ex-juiz da Lava Jato; e trocou um desastre por um currículo fake na Educação.

Quando parecia que estava fora de controle, o capitão resolveu trocar a teatralidade radical pela cenografia da moderação. Parece ter notado que a primeira-família encontra-se plugada num respirador judicial. Ainda não se sabe qual será a dimensão do estrago a ser produzido pela pandemia que se abateu sobre o clã presidencial. Mas o súbito comedimento de Bolsonaro indica que pode não ser uma gripezinha.

Josias de Souza