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Josias de Souza

Guedes exerce duplo papel: frita e se deixa fritar

Marcos Oliveira/Agência Senado
Imagem: Marcos Oliveira/Agência Senado
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

16/09/2020 04h04

A maior injustiça que se pode cometer com Waldery Rodrigues, secretário especial de Paulo Guedes, é atribuir-lhe toda a responsabilidade pela má ideia de financiar o Renda Brasil com uma tunga nos aposentados. Ele apenas tocou em praça pública um bumbo que soava nos principais gabinetes da pasta da Economia, inclusive no do ministro. Entretanto, submetido ao cheiro de óleo quente que exalava da cozinha do Planalto, Guedes empurrou o auxiliar para dentro da frigideira.

"O cartão vermelho não foi para mim", apressou-se em declarar o ministro, depois de tourear os maus bofes de Bolsonaro na audiência em que o presidente sepultou o Renda Brasil. Há duas semanas, quando o capitão disse que não admitiria o uso de verbas de pobres para socorrer paupérrimos, Guedes admitira ter tomado um "carrinho" do chefe: "Ainda bem que foi fora da área, senão era pênalti." Agora, diante de nova botinada na canela, preferiu levar Waldery à marca do pênalti.

Observando-se o comportamento de Guedes, verifica-se que ele tem vocação para engolidor de sapos. Por mais que Bolsonaro lhe faça desfeitas, não parece propenso a sair batendo a porta. Vai ficando. Arrisca-se a perder o cargo num lance fortuito, estranho ao desempenho econômico do governo. Beleza. Quem se deixa fritar deve saber a que temperatura sua pele fica crocante. O que torna o papel de Guedes menos dignificante é a percepção de que ele também frita.

No ano passado, quando Bolsonaro torceu o nariz para a recriação da CPMF, Guedes fingiu que não era com ele. Sem esboçar reação, assistiu à cena em que o presidente enfiou num micro-ondas o então secretário da Receita Federal. "Morreu em combate o nosso valente Marcos Cintra", limitou-se a afirmar o ministro, após a incineração do amigo.

Nesta terça-feira, podendo arrostar a bronca do chefe como um autêntico Posto Ipiranga, Guedes chamou o frentista Waldery ao Planalto para receber uma carraspana de Bolsonaro. Depois, sem citar-lhe o nome, insinuou que o cartão vermelho do presidente se destinava ao secretário.

Quem viu no comportamento de Guedes alguma semelhança com o ritual que transformou Marcos Cintra em carvão não deve achar que está diante de uma coincidência.

O secretário Waldery, espécie de xerife da austeridade, pode imitar o ministro, prolongando a fritura. Ou pode adensar aquilo que Guedes chamou de "debandada" quando perdeu os secretários Salim Mattar (privatizações) e Paulo Uebel (reforma administrativa).

Inaugurou-se no Ministério da Economia uma bolsa de apostas. Os colegas de Waldery estão divididos quanto ao futuro do secretário.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Josias de Souza