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Fome virou uma protagonista do cenário político

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

17/09/2020 23h30

A mais recente Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE foi realizada entre junho de 2017 e julho de 2018. O resultado reflete, portanto, uma realidade pré-Bolsonaro e pré-pandemia. Mas os dados ajudam a iluminar a conjuntura política e econômica atual. Em meados de 2018, uma legião de 122,2 milhões de brasileiros conviviam com algum grau de insegurança alimentar. Essa realidade estava presente em 36,7% dos lares do país. Numa conta arredondada, quatro em cada dez famílias lidavam com o dissabor de levar menos comida à mesa ou, no limite, passar fome. Cinco anos antes, em 2013, estavam nessa situação precária 23% das famílias —ou duas em cada dez.

O que explica a deterioração do quadro é o desastre chamado Dilma Rousseff, que mergulhou o país numa recessão em 2015 e 2016. Desde então, o Brasil tenta sair do buraco em que foi metido pela precariedade da presidente petista. Ironicamente, Bolsonaro prevaleceu na campanha de 2018 sem que uma política social fizesse parte do seu cardápio de campanha.

Na metade do seu primeiro ano de mandato, em julho de 2019, Bolsonaro ainda não parecia incomodado com os brasileiros que carregam um espaço baldio entre o esôfago e o duodeno. Numa entrevista a jornalistas estrangeiros, o presidente disse: "Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira." Bolsonaro discorreu a respeito da inexistência da fome debruçado sobre uma mesa com um farto café da manhã.

A pandemia trouxe o auxílio emergencial de R$ 600, que revigorou os índices de popularidade do presidente. De posse dos dados do IBGE compreende-se ainda melhor os motivos que levam o eleitorado mais pobre a desenvolver um apreço instantâneo pelo personagem identificado como provedor de um auxílio que foi arrancado a fórceps no Congresso.

Parece inquestionável que o quadro social traçado pelo IBGE se agravou neste ano de 2020. E a recessão provocada pela crise sanitária tende a empurrar o drama para dentro de 2021. Nesse contexto o desejo de Bolsonaro de colocar um novo Bolsa Família no lugar do auxílio emergencial é um bom propósito, não importa a motivação. O problema é que a súbita consciência social de Bolsonaro precisa se ajustar à penúria fiscal do governo. A fome virou uma protagonista da política.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL