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Josias de Souza

Brasil tem muito a desaprender com Bolsonaro

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

01/01/2021 20h03

Governar é como desenhar sem borracha. Impossível apagar os erros. Mas pode-se corrigir o traçado. O ano novo se apresentou para Bolsonaro como uma folha de papel em branco. Depois de empurrar o Brasil para um mato sem vacinas, o capitão teve a chance de traçar novas coordenadas para sua administração. Preferiu renovar para 2021 todas as resoluções que conduziram o país para o descalabro sanitário de 2020.

Em plena noite de Réveillon, Bolsonaro levou ao ar, nas redes sociais, a última live presidencial do ano. Nela, reiterou: "Não vou tomar a vacina." Estimulou: "Não tem que ter medo dá hidroxicloroquina. Comigo deu certo." Desaconselhou: "A máscara não protege de nada, isso é uma ficção." Receitou: "Uma forma de blindar a Covid é a vitamina D. Então, você pega sol."

Bolsonaro aproveitou para justificar a dificuldade que o Ministério da Saúde enfrenta na compra de seringas para injetar no braço dos brasileiros as vacinas ainda indisponíveis no país: "Vocês sabem para quanto foi o preço da seringa no Brasil? O preço foi lá para cima."

O presidente não explicou por que seu governo esperou que o preço das seringas escalasse as nuvens. Alheio à lei da oferta e da procura, Bolsonaro falou sobre a compra de vacinas como se planejasse adquirir bananas na feira: "Além da vacina da Pfizer, temos uma outra agora, da Moderna, que poderá ser adquirida para o Brasil. O que falta? Falta decidir quem vai tomar e quem não vai tomar a vacina."

Há um clima de novidade burlesca e didática na insistência com que Bolsonaro reincide nos equívocos. É como se o presidente planejasse com esmero cada erro. Num instante em que o Brasil está prestes a amargar 200 mil mortos por Covid, já não faz sentido tentar compreender o capitão à luz do bom senso.

Bolsonaro deixou de ser um presidente. Virou uma caricatura. Parece decidido a desvendar a irresponsabilidade sanitária, praticando-a. O Brasil tem muito a desaprender com o mito. Sob Bolsonaro, o Planalto convive com uma crise de sanidade. Não é que o presidente sofre de insanidade. A questão é que ele desfruta dela. Bolsonaro nunca deixará a presidência, terá alta.