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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Poder já está em nossas mãos', diz Zero Três ao negar que queira ditadura

Reprodução / Internet
Imagem: Reprodução / Internet
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

05/04/2021 19h53

Quando encontra um espaço baldio entre as orelhas, o poder costuma subir à cabeça. Foi o que ocorreu com o deputado Eduardo Bolsonaro. Alvo de duas representações no Conselho de Ética por ter defendido a volta do AI-5, o filho Zero Três do presidente da República disse que os Bolsonaro não têm interesse na restauração da ditadura, porque "o poder já está em nossas mãos".

Numa entrevista que concedeu em 2019, Eduardo Bolsonaro declarou que, se a esquerda brasileira radicalizar, "a gente vai precisar ter uma resposta. E a resposta pode ser via um novo AI-5." O Ato Institucional número 5 foi o mais draconiano instrumento da ditadura militar. Produziu, entre outras atrocidades, o fechamento do Congresso. Um deputado que jura respeitar a Constituição ao tomar posse deveria ter algum respeito pelo menos à inteligência alheia.

Ao se defender no Conselho de Ética, o Zero Três não teve como desdizer o que dissera. A entrevista foi gravada em vídeo. Saiu-se, então, com a tese segundo a qual a ditadura não interessa a quem já dispõe do poder.

"Já sendo eleito presidente da República, o menos interessado em que o país vire uma ditadura é o próprio presidente Jair Bolsonaro", disse o herdeiro do capitão. "Em igual conta, eu também, deputado federal mais votado da história do país. E muitos aí dizem que eu deveria ser cassado. Uma total violação do nosso sistema representativo. Sou o menos interessado também em ter qualquer tipo de ditadura, porque o poder já está em nossas mãos."

Eduardo Bolsonaro ainda não notou. Mas seu pai tornou-se um presidente da cota do centrão. Não é Bolsonaro que passou a ter uma base congressual. O centrão é que voltou a ter o presidente. De resto, ainda que se admitisse, para efeito de raciocínio, que os Bolsonaro estão no poder seria necessário realçar que falta-lhes alguma coisa qualquer que possa ser chamada de governo.

Ficou para a semana que vem a decisão do Conselho de Ética sobre o pedido de cassação do mandato de Eduardo Bolsonaro por quebra de decoro parlamentar. A punição é improvável. Relator do caso, o deputado Igor Timo (Podemos-MG) já recomendou o arquivamento. Nada mais previsível.

Mal comparando, o Zero Três faz lembrar um personagem secundário da peça Júlio César, de Shakespeare. Açulados por Marco Antonio, os plebeus saem à caça dos assassinos de César. Encontram Cinna. Alguém grita: "Matem-no, é um dos conspiradores!" Ouve-se uma voz ao fundo: "Não, é apenas Cinna, o poeta." E ecoa no ar uma sentença: "Então, matem-no pelos maus versos".

O mandato de Eduardo Bolsonaro deveria ser passado na lâmina até por conta dos seus "maus versos". Mas um Congresso que convive com deputada acusada de mandar matar o marido e com senador pilhado com dinheiro na cueca... um Congresso assim é capaz de absorver qualquer absurdo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL