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Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro domestica PF antes do fim do inquérito sobre intervenção no órgão

O novo ministro da Justiça, Anderson Torres, delegado da Polícia Federal e ex-secretário da Securança Pública do Distrito Federal  - Reprodução/Facebook
O novo ministro da Justiça, Anderson Torres, delegado da Polícia Federal e ex-secretário da Securança Pública do Distrito Federal Imagem: Reprodução/Facebook
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/04/2021 17h01

O Supremo Tribunal Federal demora tanto a concluir o inquérito sobre a interferência política na Polícia Federal que Bolsonaro já virou a página. Com a nomeação do delegado federal Anderson Torres, amigo da primeira-família, o presidente evoluiu da fase do aparelhamento para o estágio da domesticação da PF. A prioridade de combate à corrupção foi substituída pela necessidade de autoproteção.

Aberto pelo ex-decano do Supremo Celso de Mello, hoje aposentado, o inquérito em que Bolsonaro é acusado pelo ex-ministro Sergio Moro de tramar uma intervenção política na PF fará aniversário de um ano no próximo dia 27 de abril. E a Suprema Corte ainda não conseguiu decidir nem mesmo qual será o formato do depoimento do presidente —se por escrito ou presencial.

Um dos episódios sob investigação é a reunião interministerial de abril de 2020, aquela em que os palavrões prevaleceram sobre as ideias. Nesse encontro, Bolsonaro se queixou da PF por, supostamente, não lhe dar "informações". E esclareceu que iria intervir.

"Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura. Vai trocar; se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira."

De fato, Bolsonaro não estava para brincadeira. Foram à bandeja as cabeças de Sergio Moro e de Maurício Valeixo, então diretor-geral da Polícia Federal. Trocou-se também o chefe da PF no Rio de Janeiro. Agora, anuncia-se nova troca na direção-geral. O delegado Rolando Souza, que entrara no lugar de Valeixo, será substituído.

O Planalto tentou alegar durante a investigação sobre a interferência política que, na reunião de 2 de abril, Bolsonaro se referia ao Gabinete de Segurança Institucional, não à PF. Tocada pela própria PF, a investigação esmigalhou essa tese.

Uma das peças mais embaraçosas do inquérito é um ofício do general Augusto Heleno, amigo do presidente e ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional. Nele, Heleno anotou que "não houve óbices ou embaraços" para substituições na equipe de segurança de Bolsonaro e de seus familiares —em Brasília e no Rio de Janeiro. Confirmou a efetivação de algumas trocas.

"Por se tratar de militares da ativa, as substituições do secretário de Segurança e Coordenação Presidencial, do diretor do Departamento de Segurança Presidencial e do Chefe do Escritório de Representação do Rio de Janeiro foram decorrentes de processos administrativos internos do Exército Brasileiro", explicou Heleno.

A contradição seria um dos tópicos do interrogatório que já deveria ter sido feito com Bolsonaro. Mas o Supremo retarda a decisão sobre a inquirição do presidente. Relator do caso, o ministro Alexandre de Moraes prorrogou o inquérito por três meses no último mês de dezembro. Pediu que fosse marcada "com urgência" a data para que o plenário do Supremo definisse o formato do interrogatório de Bolsonaro. Expiraram-se todos os prazos. E nada.

Aproveitando-se do vácuo, Bolsonaro intensificou a operação de blindagem que idealizara no ano passado. A nomeação do delegado da PF Anderson Torres para a pasta da Justiça é parte do esquema de autoproteção. O personagem achegou-se à família Bolsonaro quando trabalhou como assessor parlamentar. Dará prioridade ao que Bolsonaro considera prioritário: o Estado policial.

Além da blindagem e da reaproximação com a Bancada da Bala no Congresso, Bolsonaro espera ver atendida uma velha demanda por informação. Na gravação da fatídica reunião ministerial, o presidente soou assim a certa altura:

"Pô, eu tenho a PF que não me dá informações; eu tenho as inteligências das Forças Armadas que não têm informações; a ABIN tem os seus problemas, tem algumas informações, só não tem mais porque tá faltando realmente? temos problemas? aparelhamento, etc. A gente não pode viver sem informação".

O capitão arrematou: "E me desculpe o serviço de informação nosso — todos —- é uma vergonha, uma vergonha, que eu não sou informado, e não dá para trabalhar assim, fica difícil. Por isso, vou interferir. Ponto final. Não é ameaça, não é extrapolação da minha parte. É uma verdade".

Não há dúvida, Bolsonaro falava a verdade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL