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Josias de Souza

Bolsonaro descartou evento em que seria vacinado por Marcelo Queiroga

ADRIANO MACHADO
Imagem: ADRIANO MACHADO
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

30/04/2021 04h05

No diálogo em que foi gravado sem saber numa reunião do Conselho de Saúde Suplementar, o general Luiz Eduardo Ramos, chefe da Casa Civil, contou que, além de ter tomado vacina escondido, tentava convencer Bolsonaro a se proteger da Covid. Em verdade, a tentativa não se limitou ao desperdício de saliva do general. Articulou-se no início de abril um plano para filmar o encontro do presidente da República com uma seringa. Deu errado.

O cenário chegou a ser esboçado. O evento ocorreria no Ministério da Saúde. Pelo calendário de vacinação do Distrito Federal, o sexagenário Bolsonaro, 66, teria direito à primeira dose na semana inaugural de abril. Sob holofotes, o cardiologista Marcelo Queiroga, titular da pasta da Saúde, aplicaria a vacina no presidente.

O planejamento foi meticuloso. Seria injetado no organismo do capitão o imunizante da AstraZeneca/Oxford, que entrou no Brasil mediante convênio com a Fiocruz, uma fundação vinculada ao Ministério da Saúde. Nada de Coronavac, que Bolsonaro já chamou de "vacina chinesa do João Doria".

A despeito das precauções, Bolsonaro rejeitou o plano que previa sua imunização sob holofotes. Declarou inúmeras vezes que não tomaria vacina. Recuar seria como dar o braço a torcer. Algo que não orna com a imagem de um presidente que declara não ter cometido "nenhum erro".

Bolsonaro não é mais o mesmo. Já admite tomar vacina. Mas não agora. Faz pose de magnânimo: "Eu sou chefe de Estado e tenho que dar exemplo. Já que não tem para todo mundo ainda, que tomem na minha frente. Tem gente apavorada, então toma a vacina na minha frente."

Mal comparando, a imagem de um presidente no último lugar da fila da vacinação num país que vai a pique a conta-gotas, descendo à cova junto com seus mais de 400 mil mortos, faz lembrar a cena do maestro do Titanic.

Com uma diferença: o maestro do Titanic não teve nada a ver com a batida do transatlântico no iceberg. Na falta de botes e boias para todos, manteve os músicos tocando até o último glub, glub, glub... Ao renovar as críticas aos governadores e suas medidas restritivas contra o vírus após retardar a aquisição de vacinas, Bolsonaro se converte no próprio iceberg.