PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Sob Bolsonaro, indústria da raiva é o empreendimento que mais cresce

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

07/05/2021 23h34

A pandemia empurrou o Brasil para uma zona de incerteza que desperta o pessimismo. O país vive uma época de faltas: falta de emprego, falta de estabilidade financeira, de esperança, de convivência, de cordialidade, falta de vacinas. O país vive, em contrapartida, uma época de excessos: excesso de dívidas, excesso de ansiedade, de ruídos, de dramaticidade, de instabilidade, de cloroquina, excesso de cadáveres.

Apesar de tudo, a política nacional forneceu nos últimos dias sinais de que as coisas nunca são tão ruins que não possam piorar. O Brasil já vinha enfrentando a guerra contra o vírus de forma atípica. Em vez de se unir, a federação se dividiu. Bolsonaro recusou o papel de coordenador nacional da crise sanitária.

Na primeira semana de funcionamento efetivo, a CPI da Covid acentuou essa divisão. Sentindo-se acuado, o presidente tentou uma aproximação com o relator da CPI, o multiencrencado senador Renan Calheiros. Não deu certo. E Bolsonaro decidiu religar o ventilador.

No atacado, Bolsonaro renovou a acusação de que os governadores roubam verbas federais da Saúde. No varejo, insinuou que colocará o braço investigativo do Estado na cola de Renan Filho, governador de Alagoas. De resto, o presidente chamou a CPI de "xaropada", xingou de "canalhas" os críticos da cloroquina e insinuou que o coronavírus nasceu de uma proveta da China como parte de uma guerra bacteriológica. Tudo isso num intervalo de cinco dias.

A pandemia e a guerra política ofuscaram os outros problemas. Mas eles não deixaram de existir. As atenções estão voltadas para o Ministério da Saúde. Entretanto, os problemas se acumulam em outros setores estratégicos —como Educação e Meio Ambiente, por exemplo.

Em condições normais, o país precisaria de duas ideias fixas: apressar a vacinação contra Covid e decidir o rumo a seguir depois que o vírus estiver sob controle. Parece simples. Mas falta algo trivial: sensatez. A caminho de 2022, o Brasil atravessa uma conjuntura em que o empreendimento que mais cresce é a indústria da raiva.