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Josias de Souza

Democracia volta a exibir o seu código de barras

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

10/05/2021 18h56

Notícia divulgada pelo Estadão aponta a existência de uma anomalia dentro do Orçamento da União. Descobriu-se que o governo Bolsonaro distribuiu secretamente pelo menos R$ 3 bilhões em verbas públicas para 37 parlamentares governistas. Nada a ver com as tradicionais emendas orçamentárias que deputados e senadores têm o direito de pendurar no Orçamento para enviar verbas aos seus redutos eleitorais. Trata-se de dinheiro extra, liberado no escurinho, longe dos olhares dos órgãos de controle.

A coisa foi documentada. A reportagem traz ofícios dos parlamentares para o Ministério do Desenvolvimento Regional indicando a destinação da verba. Algo como R$ 300 milhões foram usados na compra de máquinas agrícolas como tratores e retroescavadeiras com sobrepreço. Nos ofícios, os parlamentares tratam a verba pública como se fosse dinheiro grátis. É a "minha cota", anotou um dos beneficiários. "Eu fui contemplado", escreveu outro felizardo. Esses são "recursos a mim destinados", lê-se em outro documento.

Entre os parlamentares contemplados estão o ex-presidente do Senado Davi Alcolumbre e o presidente da Câmara Arthur Lira. O caso pede investigação, pois lembra episódios antigos, como o escândalo dos anões do Orçamento e a Máfia dos sanguessugas, que superfaturava a compra de ambulâncias destinadas a prefeituras. O brasileiro que sonha com uma transformação dos costumes políticos fica com a impressão de que está novamente diante de uma velha praga nacional: a Síndrome do Quase.

A higienização da política quase foi alcançada quando as ruas forçaram o Congresso a escorraçar Collor do poder. A assepsia quase foi obtida quando foram cassados os mandatos de meia dúzia de anões do Orçamento. A purificação quase chegou quando o Supremo Tribunal Federal mandou para a cadeia a cúpula do PT e os empresários enrolados no mensalão.

A nova investida contra o Orçamento indica que o impeachment de Dilma e as prisões da Lava Jato, agora em fase de relaxamento, não eliminaram a maldição do quase. Infelizmente, a democracia brasileira não consegue se livrar do código de barras.