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Josias de Souza

Celebração dos mil dias é apenas teatro eleitoral

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/09/2021 08h33

Reprovado por 53% dos brasileiros, Bolsonaro leva ao palco a encenação do governo eficiente. Durante uma semana, o presidente e seus ministros desfilarão pelas 27 unidades da federação inaugurando pedaços de asfalto, obras antigas e ordens de serviço. Trata-se de um teatro eleitoral O espetáculo da pujança é neto do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC de Dilma Rousseff, e filho do Pró-Brasil, a ficção desenvolvimentista que Bolsonaro lançou no ano passado. Feitas de pó, iniciativas desse tipo ao pó retornam.

O teatro do governo eficaz diverte Bolsonaro. Mas não resolve os problemas reais. Continua o impasse sobre as dívidas judiciais de R$ 90 bilhões que travam o reajuste do benefício do Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil. Os preços da conta de luz, da gasolina e da carne continuam pela hora da morte. Para os brasileiros que sentem no bolso e no estômago os efeitos da carestia, a cenografia das inaugurações serve apenas para revelar um governo desorientado, comandado por um presidente que só pensa em renovar o mandato.

Ninguém ignora o desejo de Bolsonaro de se reeleger, com o apoio do centrão e o proselitismo de um Bolsa Família vitaminado. De acordo com as pesquisas, se a sucessão fosse agora, Bolsonaro iria ao segundo turno para ser derrotado por Lula. Mas a eleição está marcada para outubro de 2022. E o que vem pela frente é insegurança econômica, ruína fiscal, denúncias e inquéritos. Sem a agenda que o elegeu em 2018, resta a Bolsonaro o centrão. A última pessoa que acreditou na fidelidade dos caciques do centrão foi Dilma Rousseff. Deu no que deu.

Em mil dias de governo, Bolsonaro brigou muito e trabalhou pouco. Deveria entregar austeridade e reformas nos dois primeiros anos, para pedir votos na metade final do seu mandato. Viciou-se no entorpecente do populismo fiscal. Para complicar, veio a pandemia. O presidente não criou o vírus. Investigado no TSE e no Supremo e prestes a ser indiciado por vários crimes no relatório final da CPI da Covid, Bolsonaro está hoje mais perto do Código Penal do que da reeleição.