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Josias de Souza

Bolsonaro é tostado para não queimar Petrobras

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

28/09/2021 13h48

Bolsonaro compara seus auxiliares a fusíveis. "Para evitar queimar o presidente, eles se queimam", costuma declarar. Algo inédito aconteceu na Petrobras. Interventor de Bolsonaro na estatal, o general Joaquim Silva e Luna tostou o capitão para não levar a companhia à fogueira pela segunda vez.

O presidente costuma dizer que o isolamento social dos governadores abala a economia. Na verdade, nada detona mais o ambiente econômico do que as declarações radioativas de Bolsonaro. Ele interveio na Petrobras em fevereiro. Para acomodar o general Luna, colocou no olho da rua, com espalhafato, o economista Roberto Castello Branco, apadrinhado do ministro Paulo Guedes (Economia).

O pretexto do tranco foi o desejo de baixar o preço dos combustíveis. O que aconteceu foi que os mercados começaram a elevar o câmbio. E as ações da Petrobras perderam valor.

Decorridos sete meses, Bolsonaro voltou a eletrificar a conjuntura com suas declarações. Discursando na celebração dos mil dias de governo, disse que não é por "maldade" que o dólar e os combustíveis ficam mais caros. Revelou que discutia com o Ministério de Minas e Energia formas de baratear a gasolina.

Súbito, Bolsonaro cometeu um sincericídio: "Não há nada tão ruim que não possa piorar." Um tremelique percorreu o mercado. Antes que a dúvida infectasse as ações da Petrobras, Silva e Luna convocou os repórteres para informar que nada mudou na política de preços da estatal.

Bolsonaro terminou o dia admitindo para os devotos do cercadinho do Alvorada que, embora carregue Messias no sobrenome, também está sujeito à condição humana: "Não faço milagre". Sobreveio nesta terça-feira o aviso de que o preço do diesel subirá quase 9%.

Ocorre na Petrobras um fenômeno que se repete em todas as áreas do governo Bolsonaro. O presidente gasta mais tempo e energia falando dos problemas do que enfrentando-os. Em fevereiro, quando a intervenção de Bolsonaro transformou o Posto Ipiranga numa bomba sem combustível, Paulo Guedes disse ter conversado com o chefe, obtendo dele o compromisso de gerenciar a encrenca dos combustíveis "organizadamente".

Guedes considerou natural que Bolsonaro se preocupasse com sua base eleitoral, formada pelos caminhoneiros. Hoje, diesel e a gasolina nas alturas atiçam a inflação. O valor não incomoda apenas os caminhoneiros, mas todos os que precisam encher a geladeira. A carestia intoxica o humor dos brasileiros, roendo a popularidade do presidente.

No Brasil, os combustíveis variam conforme a cotação internacional do barril do petróleo. Uma alternativa para atenuar o problema seria criar um fundo para capaz de amaciar os reajustes sem prejudicar o caixa da Petrobras. Mas Bolsonaro prefere transferir suas culpas para os governadores. Acusa-os de cobrar muito imposto sobre os combustíveis. O diabo é que o percentual mordido pelos fiscos estaduais permanece igual. O que sobe é o combustível.