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Josias de Souza

Após lavar roupa suja ao ar livre, grupo hegemônico da CPI tenta se compor

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/10/2021 06h39

Na reta final da CPI da Covid, o grupo majoritário da comissão decidiu fazer o pior da melhor maneira possível. Além de divergir, o G7 decidiu lavar a roupa suja em público. O presidente Omar Aziz e o relator Renan Calheiros passaram sabão um no outro.

Renan tentou reunir os senadores em seu gabinete. Não conseguiu. Aziz cancelou o tradicional arroz de bacalhau que servia aos colegas nas noites de segunda. Numa articulação que entrou pela noite, um grupo se senadores capitaneado por Randolfe Rodrigues costurou uma tentativa de composição. Organizou-se para esta terça-feira um encontro em território neutro, oferecido por Tasso Jereissati.

O comportamento de Renan provocou um surto de irritação na CPI. Ao farejar divergências em relação ao seu relatório, Renan vazou trechos para o noticiário antes de entregar o documento aos membros da CPI.

Os senadores enxergaram na manobra uma tentativa do relator de prevalecer pelo constrangimento, não pelo convencimento. Há queixas quanto aos crimes imputados a Bolsonaro, sobretudo o de genocídio de indígenas.

Há dúvidas quanto à inclusão dos filhos do presidente entre os indiciados. Expostos ao ar livre, os queixosos ficaram na constrangedora posição de patronos de recuos.

Omar Aziz agora afirma que não quer que Renan tire nada do relatório. Declara que excluir tópicos em nome da unidade é "conversa para boi dormir".

Renan responde que não cogita suprimir trechos do relatório por conta própria. "Quem vai tirar é a maioria. Mas a maioria tem que se expressar", disse Renan. "Não sei qual é a intensidade da divergência do presidente Omar."

O risco dessa divisão é a produção de um relatório balofo, mais político do que técnico. O rol de indiciados de Renan já soma 70 pessoas.

Os senadores expuseram suas fraturas justamente no dia em que a CPI recepcionou os parentes de vítimas da Covid. O relato pesaroso de pais, filhos, cônjuges, irmãos deu voz e rosto à placa que Renan mantém sobre sua bancada, com o número de mortos.

Diante da dignidade dos depoimentos e da dimensão do drama humano, a divisão interna da CPI transformou os senadores litigantes em pequenas pequenas criaturas, bem menores do que o desafio que a história lhes impôs.