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Josias de Souza

Ex-liberal, Guedes agora é ministro do centrão

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

25/10/2021 10h50

A caminho do Natal, o brasileiro descobriu que há uma semelhança entre Papai Noel e o liberalismo de Paulo Guedes. São duas fantasias. O ex-liberal chegou ao governo como superministro. Prometeu ser um gestor inconveniente "piratas privados", "burocratas corruptos" e "criaturas do pântano político". Hoje, é um administrador conveniente aos interesses daqueles que jurava combater. Guedes Virou um subministro da Economia a serviço do centrão e do plano de reeleição de Bolsonaro.

A pretexto de reiterar o hipotético prestígio de Guedes, Bolsonaro disse no domingo que o ex-Posto Ipiranga só deixará o governo junto com ele. Em retribuição, o ministro mimetizou a prática do chefe ao transferir para os economistas que o criticam —Mailson da Nóbrega, Henrique Meirelles e Celso Pastore, por exemplo— as culpas por suas próprias deficiências.

Quando o presidente repete que um ministro está forte e tudo o que o auxiliar tem a mostrar são os músculos de suas cordas vocais, fica evidente que chefe mente e o subordinado finge acreditar. Ainda que os economistas que deram as cartas no passado tenham cometido erros, desconstruir-lhes a obra não apagará o insucesso de Guedes.

Além de não construir o que prometera, Guedes dedica-se a demolir a obra alheia, dinamitando um teto de gastos que dizia ser inegociável. O subministro afirmou várias vezes que, se não conseguisse aprovar as reformas, pegaria "um avião" e iria "morar lá fora". Parte de sua fortuna foi na frente. Livre da inflação e corrigida pelo dólar, aguarda por ele num paraíso caribenho.

Quando Bolsonaro admitiu, ainda em campanha, que não entendia nada de economia, inspirou medo. Mas muita gente ficou tranquila porque o capitão esclareceu que dispunha de um Posto Ipiranga. Imaginou-se que o presidente não teria um ministro da Economia. O ministro é que teria o presidente. Engano. Bolsonaro revelou-se um presidente indomável sob controle do centrão. E Guedes, desmoralizado, é um subministro da cota das "criaturas do pântano político".