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Josias de Souza

Antes de virar bolsonarista, Mendonça já enalteceu Lula e votou em Marina

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

01/12/2021 09h25

Bolsonaro disse dias atrás: "Tenho 10% de mim dentro do Supremo." Referia-se ao ministro Nunes Marques. Confirmando-se a aprovação de André Mendonça pelo Senado, o presidente passará a ter 18% da Corte dentro de si. Dependendo da fidelidade do indicado, terá um pouco mais dos seus interesses representados dentro da Suprema Corte.

Do modo como age e se expressa, Bolsonaro parece tratar a escolha de suas togas de estimação como uma gestação. Ele engravida dos preferidos para que, depois do parto, eles reproduzam o seu DNA nas sentenças que irão proferir como magistrados.

André Mendonça já escreveu artigo enaltecendo a vitória de Lula na disputa presidencial de 2002. Torceu pela candidatura presidencial de Marina Silva, evangélica como ele. De repente, descobriu que trazia o bolsonarismo enterrado na alma. Passou pelo Ministério da Justiça. Ao tomar posse, bateu continência para o capitão duas vezes. Chamou-o de "profeta".

Como ministro, Mendonça banalizou o uso da Lei de Segurança Nacional em processos contra supostos ofensores de Bolsonaro. Encomendou dossiês sobre 579 servidores de segurança e professores universitários. Como advogado-geral da União, Mendonça guerreou no Supremo medidas restritivas de estados e municípios no auge da pandemia. Perdeu todas as batalhas. Mas ganhou o coração de Bolsonaro.

A subserviência não precisa ser um padrão no Supremo. Marco Aurélio Mello, o ministro aposentado que Mendonça vai substituir, se absteve de participar de processos envolvendo Fernando Collor de Mello, o primo que o indicou. Ministros como Joaquim Barbosa, Ayres Britto e Cezar Peluso, indicados por Lula, ajudaram a enviar a cúpula do PT e seus financiadores para a cadeia. Escolhido por Dilma, Edson Fachin e Luis Roberto Barroso atuaram como algozes dos encrencados no petrolão.

Há no Supremo vários processos que afetam Bolsonaro, seus filhos e aliados. Bolsonaro espera que a fidelidade de Mendonça, já testada no governo, se manifeste também no Supremo. Se o personagem mantiver o padrão de Nunes Marques, a taxa mínima de fidelidade do Supremo a Bolsonaro subirá de 10% para 18%. Não precisava ser assim. Como tudo na gestão Bolsonaro, a escolha dos ministros do supremo passa por um processo de avacalhação.