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Josias de Souza

Moro flerta com a maldição do chapéu de couro

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

07/12/2021 10h13

Uma das graças das campanhas eleitorais é acompanhar as aventuras gastronômicas e as adaptações no figurino dos candidatos. As melhores cenas da nova temporada virão em 2022. Mas Sergio Moro ofereceu no último final de semana uma ideia do que está por vir.

Em visita a Recife, capital do estado natal do rival Lula, Moro entregou-se a um ritual que já se tornou clássico. Enfiou na cabeça um chapéu de couro típico dos vaqueiros sertanejos. Recém-filiado ao Podemos, o ex-juiz pode ter encostado sua candidatura presidencial numa urucubaca que atormenta o PSDB há duas décadas.

Seguindo uma tradição inaugurada no tucanato por Fernando Henrique Cardoso, todos os presidenciáveis do PSDB usaram o chapéu de couro e deglutiram briosamente alguma especialidade da culinária nordestina. FHC mastigou buchada de bode.

Questionado pelos repórteres sobre os novos hábitos alimentares, FHC reagiu na época como se as tripas de bode o acompanhassem desde a mamadeira: "Eu gosto muito de buchada. É uma delícia." Tentou construir um elo entre o sertão e Paris. Disse que, na capital francesa, a buchada é um prato chique. Referia-se, conforme esclareceria mais tarde, a uma receita chamada 'tripe à la mode de Caen', também feita à base de tripas.

FHC permitiu-se também escalar uma montaria com a cabeça adornada pelo chapéu de vaqueiro. "Era um cavalo", apressou-se em esclarecer o então candidato, depois que o noticiário informara que ele se exibira no dorso de um jegue. FHC prevaleceu sobre Lula duas vezes, no primeiro turno. Mas alcançou o feito porque cavalgava o Plano Real, não um quadrúpede.

Desde o término da Era FHC, em 2002, o Nordeste se converteu numa espécie de Waterloo do tucanato. Os fundões do sertão, que já foram dominados no passado pelo ex-PFL (agora DEM, futuro União Brasil), foram gradativamente conquistados pelo PT. A legenda avançou sobre o voto do nordestino pobre junto com a progressão do Bolsa Família.

O petismo consolidou o território grudando no PSDB a pecha de legenda demofóbica. Depois de FHC, os tucanos José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves também se renderam ao binômio chapéu de couro-comida típica. E foram surrados nas urnas do Nordeste.

Flertando com a maldição, João Doria também usou chapéu de couro. Depois, num evento no interior da Paraíba, perguntou se alguém já tinha visitado Dubai. Ironicamente, Moro mimetizou o tucanato dias antes de se encontrar com Doria. Os dois se reunirão nesta quarta-feira, em São Paulo.

Moro e Doria talvez devessem desperdiçar um naco de tempo conversando sobre estratégia eleitoral. As pesquisas informam que Lula é o preferido de algo como 60% do eleitorado que ganha menos de dois salários mínimos. Bolsonaro, abaixo de 20% nesse nicho, tenta substituir a memória do Bolsa Família pelo improviso Auxilio Brasil.

Antes de disputar o eleitorado pobre com a dupla da polarização, candidatos como Moro e Doria precisam encontrar maneiras de roubar votos de Bolsonaro no eleitorado de classe média, retirando o capitão do segundo turno. Do contrário, participarão da disputa como candidatos favoritos a virar dois novos escalpos na galeria da maldição do chapéu de couro.